O Mimimi Nacional
- Eduardo Papa

- 25 de mai. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 27 de mai. de 2025
‘Mas digo sinceramente... Na vida, a coisa mais feia...
É gente que vive chorando de barriga cheia’.
Sylvio da Silva

*Por Eduardo Papa
O mundo virtual vem produzindo um sem número de novas expressões e alterando o uso de vocábulos com uma velocidade alucinante. A tendência ao reducionismo nas formas de expressão, em um constante esforço para simplificar as mensagens, gerou diálogos pobres, entremeados por figurinhas estereotipadas, nas quais devemos nos esforçar para enquadrar nossos sentimentos. O uso do recurso linguístico da onomatopéia cresceu de maneira exponencial, em consonância com a superficialidade e exigência de celeridade das mensagens. Eu, particularmente, as uso com muita parcimônia, não me sinto confortável em usar a repetição de uma letra para me expressar, como o irritante kkkkkkk, por exemplo, mas há uma que eu amei de paixão - o mimimi.
Vamos combinar que é uma delícia de som, evoca mamãe, mamar... Eu acho formidável! Sobretudo por exprimir o ridículo do vitimismo que vem crescendo muito nos tempos modernos. Por vezes, tenho a impressão de que vivemos em um mundo de coitadinhos, injustiçados pelo destino, pelo sistema, pelos vizinhos, pelos colegas de trabalho, pelos parceiros sexuais, etc. Passa longe de mim a intenção de estimular o conformismo nessa sociedade perversa em que vivemos, mas o rosário de lamúrias que vejo por aí não tem nada de contestador ou afirmativo. No mais das vezes, é uma reação infantilizada que reflete a incapacidade de compreender a causa profunda da angústia sentida.
É uma postura que nada tem a ver com a formação do povo brasileiro. O lamento dos escravos supliciados, a dor da fome dos retirantes e as agruras da vida nas periferias não se expressam como súplicas em nossa cultura. Tomo para exemplo o genial cientista e compositor Paulo Vanzolini, que permitiu ao brasileiro cantar olhando-se no espelho: “... um homem de moral não fica no chão... Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima...”. Poderia citar também um verdadeiro hino (Eterno Aprendiz), em que Gonzaguinha diz: “...eu sei... Que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita. É bonita, é bonita e é bonita”.
A imagem do brasileiro como um povo alegre e acolhedor, que é de fato consolidada em todo o mundo, expressa bem a natureza da nossa civilização. Um povo que viu sua terra invadida, que sofreu nas senzalas, vive privado de tudo e sabe fazer festa como nenhum outro no mundo, merece muito respeito. Saia de casa na madrugada e assista a armação de uma feira livre, ou vá a qualquer lugar em que encontre trabalhadores dando duro. O clima é geralmente bom e você ouvirá piadas e não lamentos, ainda que a labuta seja extenuante e a paga miserável. A resiliência de nossa gente é imensa, é verdade que pode ser facilmente apropriada pelo pensamento místico/religioso e transformada em resignação, mas é seguramente um trunfo da nação brasileira em sua formação. O vitimismo também não vem da nossa classe dominante, que vive curtindo a vida adoidado, um monte de velhos levando vida de playboy, predadores econômicos ferozes, dos quais qualquer choradeira cai imediatamente no ridículo.
O mimimi é coisa da classe média. A classe média estadunidense foi o laboratório de transformação do homem cidadão em homem consumidor, o processo espalhou-se pelo mundo, tendo grande sucesso em nosso país. Os indicadores que apontam o endividamento das famílias no Brasil comprovam que o sistema financeiro captura como reféns milhões de brasileiros, oferecendo crédito fácil a juros escorchantes. A banca de fato é leonina, mas não podemos eximir de culpa os próprios consumidores incautos. Tirando da conta as pessoas absolutamente desesperadas, que encontram todas as facilidades do sistema bancário para comer mais um dia e adiar sua falência pessoal, a maioria dos inadimplentes cedeu a um impulso de consumo que não cabia em seu bolso. Desde os tempos da porquinha das Casas da Banha até os influencers do youtube nos nossos dias, que a mídia se esmera em criar necessidades de consumo. A sofisticação dos meios de comunicação e sua imbricação com a indústria cultural criaram uma cornucópia de desejos para o homem moderno, aspirações que podem tornar-se imperiosas a ponto de levar a uma administração ruinosa dos recursos financeiros familiares. Se o leitor observar com cuidado, poderá identificar como a sociedade de consumo encaixou a idéia de mérito, tão cara ao pensamento neoliberal, em sua estratégia para a sedução das pessoas. É o caso do infeliz que contraiu uma dívida que não pode pagar, porque o convenceram de que ele merecia um automóvel novo. Quem nunca ouviu alguém falar antes de se encalacrar: ah eu mereço essa viagem! O pobre coitado depois não consegue nem pagar o combustível para rodar, e o turista pode passar fome durante a viagem inteira, mas vai trazer fotos maravilhosas, da mesma forma que o motorista pode posar ao volante do seu possante. Já valeu, pois no mundo mágico das redes sociais, não faz mal se você comeu sardinha enlatada e pão dormido, o importante é arrotar champanhe e caviar.
O problema das expectativas de consumo é que tendem a crescer até o ponto de não poderem mais ser atendidas, o que, inevitavelmente, gera a frustração. O homem consumidor é um ser insaciável, depois do carrinho quer um carrão, depois do carrão quer um iate, depois do iate quer um jatinho, depois do jatinho quer um foguete espacial! Ora, se os desejos de consumo não podem ser atendidos plenamente e a felicidade e realização pessoal para o homem consumidor dependem de sua satisfação, o resultado é um monte de gente infeliz e insatisfeita, reclamando de tudo o tempo inteiro. E se você foi convencido de que merece alcançar aquele objeto de desejo, que na prática se mostra inalcançável, irá adquirir a absoluta certeza de que sofreu uma injustiça abominável. Como está fora do script refletir mais profundamente sobre seus desejos, suas limitações, sua relação com a sociedade de consumo, ou qualquer outro aspecto que envolva olhar para dentro de si próprio. O próximo passo é buscar culpados para justificar a impossibilidade de atingir suas metas: não passou no concurso por causa do sistema de cotas, não conseguiu a promoção porque o colega foi injustamente favorecido, sempre atribuindo o insucesso a motivos externos, não raramente consegue identificar uma conspiração para que você não alcance aquilo que lhe é de direito. E dá-lhe mimimi!
Além do recorte por classe econômica, a sofrência nacional também tem ideologia. Em 1979, a ditadura baixou a mão pesada sobre a organização política em que eu militava (o MEP). Felizmente eu não fui preso, mas passei dias convivendo com o medo, enquanto trabalhava com outros que se safaram, para juntar os caquinhos que sobraram do partido. Quando os companheiros que caíram foram libertados, estavam machucados, passaram por torturas e sevícias bárbaras, mas não vi ninguém chorar. Gente de grande valor, de quem eu tenho grande orgulho, e para quem não tinha mimimi. Luiz Carlos Prestes passou anos preso na solitária e saiu da cadeia apoiando o Getúlio nas eleições, colocando a posição do partido pelo bem do país em primeiro lugar, esquecendo o rancor, que seria totalmente compreensível, por quem entregou sua amada para morrer em um campo de concentração nazista. Milhares de brasileiros foram presos, exilados, torturados e perseguidos pela ditadura militar e não tinha choradeira, mas sim a firmeza política dos justos e o olhar para o futuro com a esperança dos guerreiros. O presidente Lula é um exemplo vivo e atual, encarou mais de um ano de cadeia, ciente da própria inocência e da armação de que foi vítima, sem se fazer de coitado um minuto sequer. Não quero vender meus companheiros no pensamento como rochas inquebrantáveis, somos de carne e osso como todo mundo, mas a diferença de atitude, quando comparada a dos chamados conservadores de direita, é colossal.
O maior exemplo disso é o modo vexatório como sua principal liderança desce a ladeira da ribalta. Tratado por seus áulicos como uma figura mitológica, um super homem, que esbanjava bravatas para todo lado, anunciando que ia metralhar a petralhada do Acre, que debochou dos enfermos na pandemia, que se dizia “imbrochável”, a que se reduziu hoje? Uma figura patética e impotente, que corre para o hospital sempre que se vê acuado pela justiça, que chora em público igual a um bebê, que vive reclamando da vida e pedindo pix, embora ganhe mais de cem mil por mês. É a imagem de um fraco e imaturo, incapaz de assumir a responsabilidade por seus atos. Da mesma forma, os militares traidores, que o usaram para liderar a quartelada, são a própria encarnação da covardia. Os militantes políticos de esquerda presos e torturados durante a ditadura militar, que resistiram e não entregaram informações sobre seus companheiros, hoje podem dar gargalhadas, observando o espetáculo degradante dos milicos golpistas dedurando uns aos outros, em um frenesi de delações, tentando empurrar a responsabilidade sobre os comparsas, para diminuir suas penas. Essa gente que se propunha a implantar um regime totalitário mostrou do que realmente é feita quando a casa caiu. Veja o curioso caso do Comandante do Batalhão de Guerra Psicológica do Exército, que desmaiou ao ser preso. O sujeito que provavelmente planejou a ação dos tais Kids Pretos nas arruaças em Brasília, o expert em guerra psicológica! Imaginem a cena: “toc...toc...toc...toc. Quem é? É a polícia federal... Oh meus sais!”
Cobriram-se de vergonha pela infâmia da traição à pátria, mas também pela pusilanimidade com que reagiram quando foram pegos. Homúnculos morais que desonraram a farda com que a nação os vestiu, que nem acabaram de ser julgados ainda e, com a certeza da culpa, já rastejam perante a opinião pública implorando por anistia. Usam a desgraça dos idiotas que convenceram a servir de bucha de canhão em sua quartelada, para obter a clemência em benefício próprio. Seria engraçado se não fosse trágico, ver esses verdadeiros cães raivosos, que espumavam de ódio apregoando a violência como justiça para seus opositores, agora se fazendo de gatinhos fofinhos e bem intencionados. O que será que a cabeleireira do batom ou a velhota de Tubarão estariam dizendo agora, se seus líderes estivessem agora implantando um regime de terror? Será que demonstrariam alguma piedade por quem estivesse sendo preso e torturado? Claro que não! Pois absorvem não apenas a covardia, mas também o sadismo, próprio do fascismo, impregnado em seus líderes. É uma gente que grita bandido bom é bandido morto, que tripudia sobre a população de rua, que entoa cânticos racistas nos estádios de futebol, que agride e discrimina quem não professa sua fé ou tem uma orientação sexual diversa. Pessoas que justificam qualquer violência contra quem dirigem o seu ódio, mas que se consideram merecedoras do perdão divino e da complacência da justiça dos homens ante os seus crimes.
E o brasileiro que se cuide e fique esperto, pois o lobo acuado veste a pele de cordeiro e aqueles que hoje posam de pobres inocentes, implorando por piedade, podem ser os algozes de amanhã. Esse é o exemplo que encontramos em nossa história: em 1955, Juscelino Kubitsheck anistiou Castello Branco e outros militares que urdiram um golpe contra ele, nove anos depois, os mesmos traidores deram o golpe em Jango, cassaram JK e o perseguiram até a morte. Infelizmente nosso estamento castrense não é confiável, em 136 anos de república, os militares conspiraram para tomar o poder pela força nada menos que 15 vezes, uma a cada nove anos. Se facilitarmos com Bolsonaro e sua gangue, eles certamente tentarão novamente. Eu respeito muito a dor das pessoas, sou de natureza libertária e não costumo comemorar prisões, mas a democracia brasileira desde sempre anda sobre o arame, coagida pelo tacão de coturnos ameaçadores. Isso tem que acabar! Somos milhões de brasileiros que trabalhamos para construir a riqueza que sustenta a suculenta mamata de quem calça esses coturnos, e já passou da hora dessa gente abusada entender qual é o seu lugar, que o Brasil não existe para servi-los, mas sim o contrário. Simples assim.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com.br)




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