O Papa do amor e da esperança: Francisco morre aos 88 anos e deixa legado de fraternidade, compaixão e justiça social
- Pimenta Rosa
- 21 de abr. de 2025
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Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano, faleceu nesta segunda-feira (21), em Roma, após 12 anos de pontificado marcados pela defesa dos pobres, à comunidade LGBTQIA+, ao diálogo inter-religioso e por um olhar misericordioso às periferias humanas e existenciais.

O Vaticano confirmou na manhã desta segunda-feira (21) o falecimento de Papa Francisco, aos 88 anos, às 7h35 no horário local (2h35 em Brasília). O pontífice argentino, que ocupou o cargo máximo da Igreja Católica por doze anos, se recuperava de uma pneumonia nos dois pulmões e havia passado por um longo período de internação de 38 dias no Policlínico Gemelli. Até seus últimos dias, manteve seu compromisso com os mais vulneráveis, telefonando, inclusive, à paróquia de Gaza, onde fiéis se protegiam da violência da guerra.
Francisco, que adotou o nome inspirado em São Francisco de Assis, é lembrado por uma liderança transformadora, marcada pela humildade, empatia e gestos que falaram tão alto quanto suas palavras. Desde sua primeira aparição pública, quando saudou a multidão com um singelo 'Boa noite' e pediu orações ao povo antes de abençoá-lo, até o emocionante momento em que, ajoelhado, beijou os pés de líderes rivais do Sudão do Sul para pedir paz, sua missão esteve pautada na simplicidade e no cuidado com o outro.
Primeiro papa jesuíta e latino-americano, Bergoglio enfrentou com coragem temas delicados dentro e fora da Igreja, promovendo uma 'Igreja em saída', como costumava dizer, próxima dos excluídos, dos migrantes, dos pobres, dos povos originários e das famílias. Em 2013, viajou a Lampedusa, onde chorou pelos migrantes mortos no Mediterrâneo. Em 2018, foi até Puerto Maldonado, no Peru, onde demonstrou seu compromisso com os povos da Amazônia. E em Roma, inúmeras vezes, saiu do Vaticano para visitar periferias e presídios, mantendo a tradição do lava-pés entre os encarcerados.
Ao longo de seu pontificado, o Papa Francisco demonstrou uma abertura inédita no diálogo com a comunidade LGBT+, buscando romper com discursos excludentes e promover uma Igreja mais acolhedora. Promoveu um avanço histórico de aceitação da Igreja Católica sobre pessoas LGBTQIA+. Ele recebeu um grupo de trabalhadores sexuais e transexuais para um jantar no Vaticano, afirmou que a população transgênero pode ser batizada e testemunhar casamentos católicos e ainda deu um raro sinal de aceitação aos casais homoafetivos.
Reafirmou que 'as pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família' e que 'são filhas de Deus', enfatizando a importância do respeito, da dignidade e da inclusão. Em 2020, causou grande repercussão ao declarar apoio à união civil entre pessoas do mesmo sexo, reconhecendo seus direitos civis fora do sacramento do matrimônio.
No documentário Amén. Francisco responde (2023), o Papa escutou jovens LGBTQIA+ com empatia, reforçando que 'todos somos filhos de Deus e Ele nos ama como somos' Esses gestos e posicionamentos revelam o esforço de Francisco em aproximar a Igreja daqueles que por muito tempo se sentiram marginalizados, apontando para uma pastoral da escuta, do cuidado e da misericórdia.
Durante a pandemia, uma imagem sua se tornou símbolo de esperança: sozinho, em meio à chuva e ao vazio da Praça São Pedro, Francisco rezou diante do mundo em um 'momento extraordinário de oração', recordando que 'estamos todos no mesmo barco'. Esse gesto sintetiza o seu pontificado: uma presença amorosa no meio da tempestade.
Francisco também promoveu avanços no diálogo inter-religioso e na busca por fraternidade universal, como quando assinou, ao lado do imã Ahmed Al-Tayeb, o histórico Documento sobre a Fraternidade Humana, que inspirou a encíclica Fratelli Tutti. Com ela, convocou os povos do mundo a viverem com base no respeito mútuo, na paz e na solidariedade.
No âmbito eclesial, promoveu dois sínodos sobre a família, valorizando o amor conjugal e os laços familiares com profundidade pastoral e teológica. Também deu voz aos leigos e movimentos populares ao levantar os princípios dos 'três Ts': terra, teto e trabalho.
Seus gestos e palavras também alcançaram aqueles que historicamente se sentiram marginalizados pela Igreja. Francisco abriu caminhos de escuta e acolhida, sem abrir mão da doutrina, mas ampliando a compaixão e o diálogo.
O Jubileu da Misericórdia, a encíclica ecológica Laudato Si’, a exortação Querida Amazônia, as visitas a campos de extermínio nazistas e sua constante denúncia da 'cultura do descarte' são apenas alguns dos marcos de um pontificado que buscou devolver à Igreja seu rosto humano, próximo, ferido, mas cheio de ternura.
Sua morte deixa um vazio profundo, mas também um legado que continuará ecoando: 'Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados', declarou ele em 2020. E é com essa esperança que os fiéis, ao redor do mundo, se despedem de um Papa que, com gestos e palavras, ensinou a viver o Evangelho no coração do mundo.
Declarações de Papa Francisco sobre a comunidade LGBTQIA+ durante seus 12 anos de pontificado

'Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?'
'As pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família'.
'Todos somos filhos de Deus e Ele nos ama como somos'.
'Apoiem seus filhos se eles forem gays'.
'Você precisa ser feliz com quem é. Deus o fez assim e o ama assim, e o Papa o ama assim'. - Durante visita do Juan Carlos Cruz, chileno transexual que foi abusado sexualmente durante anos por padres católicos
'Essa oscilação entre masculino e feminino se torna, no fim do dia, apenas uma demonstração ‘provocativa’ contra as assim chamadas ‘estruturas tradicionais.' - Intitulado Masculino e feminino foram criados por Ele, o documento de 31 páginas também defende ideias como a definição biológica como única para 'o que constitui masculino ou feminino' e que médicos intervenham em pacientes intersexuais, mesmo contra a vontade dos responsáveis.
'As pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família, são filhos de Deus, possuem direito a uma família'.
'Não se pode expulsar ninguém de uma família, nem tornar sua vida impossível por isso. O que temos que fazer é uma lei de convivência civil, eles têm direito a estarem legalmente protegidos. Eu defendi isso'.
'O Senhor sempre caminha conosco… Mesmo que sejamos pecadores, Ele se aproxima para nos ajudar. O Senhor nos ama como somos, este é o amor louco de Deus'.
'Quando se pede uma bênção, expressa-se um pedido de ajuda a Deus, uma súplica para viver melhor'.
'Penso nas pessoas homossexuais ou transexuais que procuram o Senhor e que, em vez disso, foram rejeitadas e afastadas. Jesus andava ao encontro das pessoas que viviam à margem e é isso que a Igreja deve fazer hoje com as pessoas da comunidade LGBTQ+'.




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