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O voto: arma dos samurais

Foto do escritor: Luiz Carlos Campos*
Luiz Carlos Campos*
há 11 horas
4 min de leitura

Luiz Carlos Campos*

 

A motivação para escrever este texto germinou após duas leituras. A primeira, realizada há bastante tempo, foi a apresentação sobre o porquê da criação do “Jornal Pimenta Rosa”, na qual lemos: “Ao contrário do ódio, acreditamos que o amor é a grande chave para a conquista de um mundo melhor, capaz de oferecer a nossos filhos e netos um futuro bem diferente”. A segunda foi motivada por uma série a que assisti: “O Que Você Vai Fazer, Ieyasu?”.

 

Peço aqui a permissão do leitor para, em um parágrafo, esclarecer quem foi Ieyasu, caso não tenha assistido à série japonesa de drama histórico produzida pela NHK em 2023, no formato taiga drama — dramas históricos anuais da televisão japonesa — e exibida em uma das plataformas de streaming disponíveis.

 

Tokugawa Ieyasu, nascido Matsudaira Takechiyo em 1542, era filho do senhor da província de Mikawa. Nasceu em um período de intensa guerra civil no Japão, marcado por disputas entre senhores territoriais que se prolongavam havia quase um século. Aos quatro anos, foi enviado como refém para assegurar uma aliança entre seu clã e o clã Imagawa. Ao longo de sua trajetória, dedicou-se à restauração da estabilidade do país e ao incentivo do comércio exterior, mantendo relações diplomáticas com governantes europeus, entre eles Jaime I da Inglaterra. Também adotou o nome Tokugawa, associado à origem de sua família, passando a ser conhecido como Tokugawa Ieyasu. Morreu em 17 de abril de 1616 e foi deificado, enquanto seu mausoléu, em Nikko, tornou-se um dos mais importantes santuários do Japão.

 

Feita a apresentação, meu paciente leitor, voltemos ao artigo.

 

Sabemos que toda obra de arte é uma construção ficcional e que não constitui uma reprodução da realidade, mas uma construção elaborada a partir de elementos, experiências e percepções provenientes do mundo real. Essa foi uma das reflexões que me levou a escrever este texto, uma vez que a personagem principal da série retoma, em sua construção biográfica, o sonho e o desejo de “promover uma paz duradoura e consolidar a estabilidade política, encerrando mais de um século de intensos conflitos civis durante o período Sengoku”. A série também apresenta como princípio de conduta ética e moral o lema escrito no estandarte de guerra, baseado no mantra budista da seita da Terra Pura (Jodo Shu): “Rejeite este mundo impuro e corrupto, e busque fervorosamente a Terra Pura”. Ambos são elementos apropriados da trajetória da pessoa real de Ieyasu.

 

A outra leitura, à qual me referi no início deste texto, foi a justificativa para a criação desse jornal, pois ela estabelece uma tessitura de sentidos com a série já mencionada. Em ambas, há uma preocupação com o presente, mas com os olhos voltados para o futuro: o combate ao ódio por meio do amor e um olhar respeitoso sobre o outro. Ambas apontam que somos diferentes, mas iguais enquanto povo e nação, compartilhando desejos de bem-estar social, filosófico e de equidade.

 

Vivemos hoje, em nosso país, situações que guardam algumas semelhanças com aquelas que levaram Ieyasu aos campos de batalha, empunhando suas armas, em meio a complôs e mentiras criados por seus detratores, que, segundo a narrativa da série, buscavam o poder e a recuperação e manutenção de seu status quo, ou seja, do poder familiar. Na série, fica evidente que o clã Toyotomi utiliza diferentes meios para desacreditá-lo. Entretanto, o lema “Rejeite este mundo impuro e corrupto, e busque fervorosamente a Terra Pura” permanece associado à trajetória de Ieyasu e ao período de mais de duzentos e cinquenta anos de domínio do xogunato Tokugawa.

 

Não podemos retroceder àquele período histórico do Japão, mas a História nos oferece diferentes situações nas quais estruturas e modelos construídos ao longo da formação das sociedades — sejam elas ocidentais, orientais ou pertencentes ao mundo islâmico — podem reaparecer em novos contextos. Refiro-me, aqui, às sociedades democráticas, nas quais também podem emergir disputas pelo poder e tentativas de retorno a formas de organização política características de períodos feudais ou absolutistas.

 

Não somos mais vassalos nem pegamos em armas. Hoje, porém, usamos o voto como os antigos samurais utilizavam suas katanas: espada longa, curva e de um único gume, considerada a “alma” do guerreiro e concebida para realizar ataques rápidos.

 

Se antes a katana representava uma das principais armas do samurai, hoje o voto constitui uma das ferramentas fundamentais de participação política em uma sociedade democrática. É por meio dele que cada cidadão pode expressar sua escolha e participar da construção dos caminhos que deseja para a sociedade.

 

Talvez seja essa a principal tessitura entre a história de Ieyasu, a série e a existência deste jornal: a possibilidade de olhar para o passado, compreender o presente e pensar o futuro. Se a história nos apresenta conflitos, disputas e diferentes formas de exercício do poder, também nos permite refletir sobre os instrumentos que temos, no presente, para participar da construção de uma sociedade democrática, pautada pela equidade que desejamos.

 

 

Luiz Carlos Campos

Doutor em Educação e mestre em Teoria e literatura brasileira. Professor rede pública e universitário.

 
 
 

1 comentário


Carlos Poeta
há 8 horas

Texto simples, mas de uma profundidade muito grande e da responsabilidade que temo com a DEMOCRACIA.

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