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O voto é do eleitor. Não dos caciques

Foto do escritor: Pimenta Rosa
Pimenta Rosa
há 1 hora
6 min de leitura

EDITORIAL


Na disputa pelo Senado no Rio, cresce a pressão para que o eleitor concentre seu segundo voto em Pedro Paulo. Mas os dois votos têm exatamente o mesmo peso — e a escolha pertence a quem está diante da urna. Há uma pergunta que precisa ser feita antes que o Rio de Janeiro vá às urnas: afinal, quem escolhe os dois senadores do Estado: o eleitor ou as articulações políticas?

 

A eleição de 2026 colocou essa questão no centro da disputa pelo Senado fluminense. O Rio de Janeiro elegerá dois senadores. E há uma movimentação política para concentrar votos em Pedro Paulo. Ao mesmo tempo, Mônica Benício, do PSOL, disputa uma das duas vagas. A divisão dentro do campo governista tornou-se pública. Em ato no Rio, Pedro Paulo foi vaiado quando teve seu nome defendido, enquanto parte do público manifestou apoio a Mônica. Lula, por sua vez, defendeu Pedro Paulo e argumentou que a fragmentação da base poderia dificultar a formação de maioria no Senado.

 

Tudo isso faz parte da política. Partidos fazem alianças. Lideranças apoiam candidatos. Campanhas pedem votos. Mas uma coisa é articulação política. Outra é tentar transformar articulação em obrigação eleitoral. O eleitor não é cabo eleitoral de ninguém. Não é obrigado a seguir orientação de partido, liderança, prefeito, presidente, governador ou qualquer outra autoridade política. E, sobretudo, não precisa pedir autorização para escolher seu segundo voto.

 

Dois votos. O mesmo peso.

É preciso repetir o óbvio porque, em uma eleição disputada como esta, o óbvio pode acabar sendo escondido pela estratégia eleitoral: os dois votos para o Senado têm exatamente o mesmo peso; o primeiro candidato digitado não vale mais, e o segundo não vale menos.

 

Não existe “voto principal” e “voto complementar”. Não existe “primeira escolha” com peso maior na apuração. O eleitor pode, naturalmente, ter uma preferência pessoal. Pode considerar um candidato sua primeira opção e outro sua segunda. Mas, juridicamente e eleitoralmente, cada candidato recebe um voto de igual valor.

O Senado Federal acaba de reafirmar essa regra para as eleições de 2026: cada eleitor deverá escolher dois candidatos diferentes, e os dois votos têm o mesmo peso. Os dois candidatos mais votados em cada estado e no Distrito Federal serão eleitos.

 

Isso é fundamental para compreender o que está em jogo no Rio. Quando alguém diz: “O primeiro voto é de fulano e o segundo voto deve ser de sicrano”, é preciso entender que está falando de uma estratégia política, não de uma regra da eleição, porque, na urna, o primeiro voto não vale mais. O segundo voto não vale menos. Os dois valem exatamente a mesma coisa.

 

A urna não pertence às alianças

O eleitor pode votar em dois candidatos da mesma corrente política. Pode escolher candidatos de partidos diferentes. Pode escolher duas mulheres. Pode escolher dois homens. Pode combinar suas escolhas de acordo com suas próprias convicções. Pode escolher Mônica Benício e outro candidato. Pode até escolher Pedro Paulo e outro candidato. Pode escolher qualquer outra combinação entre os nomes que disputam as duas vagas.

 

A decisão é do eleitor. E, quando existe pressão para que determinado candidato não receba votos porque isso poderia favorecer outro, a pergunta é legítima: favorecer quem? E por quê? Não se trata de impedir que partidos e lideranças defendam seus candidatos. Eles têm todo o direito de fazê-lo. O que precisa ser preservado é outra coisa: o direito do eleitor de não aceitar a combinação que lhe é apresentada.

 

Dilma e Suplicy: quando a segunda vaga também decide

A história recente do Senado brasileiro ajuda a compreender a dimensão dessa escolha. Em 2018, duas vagas estavam em disputa. Em Minas, Dilma Rousseff — ex-presidente da República e uma das principais lideranças do campo progressista — liderava a pesquisa de intenção de votos e recebeu 2.709.223 votos, correspondentes a 15,35%, e terminou em quarto lugar. Rodrigo Pacheco e Carlos Viana ficaram com as duas vagas. Em São Paulo, Eduardo Suplicy — liderança histórica do PT e ex-senador —, que também liderava a pesquisa, recebeu 4.667.565 votos, 13,32%, e terminou em terceiro. Major Olímpio e Mara Gabrilli conquistaram as duas cadeiras.

 

Não é possível atribuir esses resultados exclusivamente a uma determinada “manobra” sem evidências específicas, mas existe uma lição objetiva nesses dois casos: liderar pesquisa não é garantia de vaga ao parlamento.

 

O eleitor pode ter primeira preferência. A urna não.

Essa distinção precisa ser feita. O eleitor pode dizer: “Meu primeiro nome é Mônica.” Ou: “Meu primeiro nome é Benedita.” Ou: “Meu primeiro nome é Pedro Paulo.” Isso é uma preferência política legítima. Mas a urna não transforma essa preferência em uma pontuação diferente.

Se Mônica for digitada primeiro e outro candidato depois, cada um receberá um voto. Se a ordem for invertida, exatamente a mesma coisa. Não existe voto de primeira classe e voto de segunda classe. O eleitor pode ter uma primeira preferência. A apuração, não.

 

O histórico também vai para a urna

E é justamente por isso que cada candidatura precisa ser conhecida em sua totalidade. Pedro Paulo tem uma longa trajetória política e seu histórico parlamentar faz parte das informações que o eleitor tem direito de conhecer. Em 2016, então deputado federal pelo PMDB, votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Em 2017, votou favoravelmente à Reforma Trabalhista e também apoiou a proposta que resultou na Emenda Constitucional do Teto de Gastos. Esses votos fazem parte de seu registro parlamentar e devem ser analisados dentro do contexto político de cada período.

 

Há ainda um episódio de sua vida pessoal que veio a público em 2015. Boletins de ocorrência registrados em 2008 e 2010 continham acusações de agressão feitas por sua então esposa, Alexandra Marcondes. Pedro Paulo reconheceu publicamente a existência de brigas e falou em “descontroles mútuos”.

Mas a questão é outra: o eleitor tem o direito de conhecer essas informações antes de votar. Não cabe a nenhuma articulação política selecionar quais informações o cidadão pode ou não considerar.

 

Há uma razão ainda mais urgente para discutir isso

O Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025. Mais de seis em cada dez vítimas eram mulheres negras. Dois terços dos crimes ocorreram dentro da residência da vítima e cerca de oito em cada dez foram cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Nesse cenário, qualquer histórico público envolvendo acusações de violência contra uma mulher precisa ser conhecido, contextualizado e discutido. Não para produzir condenações eleitorais antecipadas. Mas para que o eleitor possa fazer suas próprias perguntas. É exatamente isso que uma democracia exige.

 

Enquanto isso, candidaturas LGBTQIA+ são atacadas

O debate ganha uma dimensão ainda maior quando observamos o que está acontecendo nas próprias eleições de 2026. A plataforma Sentinela, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania, identificou 13 mil comentários ofensivos com alvo definido contra candidaturas LGBT+. A análise foi feita a partir de mais de 1 milhão de interações publicadas no Instagram, das quais 307.185 foram selecionadas para análise aprofundada. Mais de 11 mil contas diferentes apareceram envolvidas nas agressões.

 

Segundo o levantamento, 92,7% das agressões tiveram candidaturas de mulheres LGBT+ como alvo e 83,6% atingiram candidaturas negras da comunidade. Não estamos falando apenas de uma disputa eleitoral. Estamos falando de quem consegue ocupar espaços de poder sem ser submetido a uma máquina de violência política.

 

O VoteLGBT identificou 526 candidaturas LGBTQIA+ nas eleições de 2026, distribuídas pelas 27 unidades da Federação. Mônica Benício é uma dessas candidaturas. Mas não deve ser tratada apenas como “a candidata LGBT+”. É uma candidata ao Senado. Tem trajetória política. Tem propostas. Tem posições. Tem atuação parlamentar. E deve ser submetida ao mesmo escrutínio público que qualquer outro nome. Nem blindagem. Nem veto. Informação.

 

Não é sobre Mônica. Não é sobre Pedro Paulo.

É sobre algo maior. É sobre o direito de o eleitor escolher. Mônica Benício pode ser criticada. Pedro Paulo pode ser criticado. Benedita da Silva pode ser criticada. Todos os candidatos podem — e devem — ser questionados. É assim que funciona uma democracia.

 

O que não pode acontecer é transformar uma eleição em uma operação para dizer ao eleitor: “Você pode escolher este. Mas aquele, não.” Se uma candidatura tem propostas que considera melhores, apresente-as. Se tem trajetória da qual se orgulha, mostre-a. Se tem votos no Congresso que considera acertados, defenda-os. Se tem decisões políticas que considera corretas, explique-as. Mas não tente escolher o voto do outro.

 

O Pimenta Rosa não escolhe o voto do leitor

O Jornal Pimenta Rosa não existe para dizer ao seu leitor em quem votar. Existe para fazer aquilo que o jornalismo deve fazer: informar, questionar, investigar, dar contexto, e, principalmente, colocar luz onde alguns prefeririam deixar sombra.

 

O Rio de Janeiro tem duas vagas para o Senado. São dois votos, que cada eleitor conheça os candidatos, suas histórias, seus votos, suas alianças, suas propostas, suas controvérsias, e então escolha. Sem medo. Sem constrangimento. Sem cabresto. Sem cacique.

 

 
 
 

1 comentário


Eduardo Papa
há uma hora

Excelente e necessária explicação, Temos que votar nas duas para o senado, e vão chegar lá com a benção de Nossa Senhora Aparecida

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