top of page

Um Ypê roxo de vergonha

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

Mosaico 'Homo stupidus stupidus brasiliensis' de Eduardo Papa
Mosaico 'Homo stupidus stupidus brasiliensis' de Eduardo Papa

*Eduardo Papa

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária encontrou sinais da presença de uma bactéria potencialmente perigosa para os consumidores em um produto de limpeza. Foram então acionados os protocolos usuais, sendo emitido um alerta sanitário e determinada a suspensão da comercialização do lote da mercadoria suspeito de contaminação. Algo corriqueiro, afinal os órgãos de controle e fiscalização estão aí para isso mesmo. Na verdade, o referido produto não chegou a sair das prateleiras dos supermercados, pois a empresa apresentou um recurso e conseguiu reverter a determinação, com base em uma legislação (aprovada por esse #congressoinimigodopovo) que permite a suspensão de uma medida sanitária dessa gravidade mediante um mero recurso administrativo. Mais uma brecha aberta em nossa segurança sanitária, pela ensandecida fúria de nossos atuais legisladores contra a regulamentação excessiva imposta pelo Estado malvadão. Uma cantilena repetida à exaustão por pobres incautos, influenciados por uma eficiente propaganda do grande capital, contra quaisquer limites que a sociedade ouse tentar impor a sua desmedida avidez pelo lucro.

 

A TV Globo exibiu, em uma matéria do Fantástico, a porqueira que é a fábrica onde é produzido o detergente suspeito de contaminação, uma imundície! O tipo de serviço de utilidade pública que se espera dos meios de comunicação, pois se uma ameaça sanitária não é divulgada, as pessoas, ignorando o perigo, não tomam as medidas necessárias para sua proteção (lembram da pandemia?). Muito bem, eu fui verificar, e, para meu alívio, não tinha nenhum item suspeito no meu armário. As pessoas comuns fizeram o mesmo, e as que tinham o produto suspenderam o uso até o esclarecimento definitivo dos fatos, conforme a orientação da ANVISA, os mais abonados e apressadinhos jogaram logo no lixo o mico preto. Entretanto, existe hoje um novo tipo de brasileiro, cuja mente se move em outra sintonia. Levantaram a lebre que o dono da fábrica de sabão deu um milhão para a campanha de Bolsonaro, daí para que os patriotarios inferissem ser uma perseguição política foi um passo.

 

Uma suspeição obviamente infundada, pois foi a própria empresa que comunicou a ANVISA ter encontrado indícios do problema em seu produto, o diretor do órgão que assinou a medida foi indicado para o cargo na gestão de Bolsonaro, e o processo todo ocorreu dentro da normalidade para esses casos. Mas não para nossos diligentes patriotas, que enxergaram por trás da medida uma evidente conspiração de esquerdistas para prejudicar um empresário de direita. Uma das características do fascismo é o vitimismo, são sempre uns coitadinhos perseguidos, até chegarem ao poder, quando viram monstros assassinos. O maior exemplo que temos disso hoje é o Estado fascista de Israel, que pratica o apartheid e promove o maior genocídio da atualidade, mas qualquer um que denuncie o fato é imediatamente acusado de antissemitismo, e os brutais torturadores sionistas se escondem atrás da imagem das vítimas do holocausto nazista, do qual copiaram os métodos.

 

A medida da ANVISA pegou o bolsonarismo no auge do chororô, depois que o Xandão jogou na lata do lixo o projeto de anistia para seu líder (considerado inconstitucional por todos os juristas sérios do país). O mimimi da turma já estava no auge, quando a Janaína Pascoal insinuou a possibilidade de uma perseguição a um empresário que apoiou o mito, foi a senha. Uma série de influenciadores e políticos de extrema direita abraçaram a causa e partiram com determinação em defesa da bactéria no sabão. Um senador mineiro, que atende pelo vulgo de Cleitinho, gravou vídeo contra a intromissão do governo, supostamente querendo comandar a buchas de pia de todo o país. O Véio da Havan, que andou sumido enquanto as investigações sobre os financiadores do golpe estavam em andamento, apareceu na mesma toada, lavando louça na pia como um ato de resistência ao autoritarismo dos comunistas. Micheque postou a foto de uma garrafa do detergente em um cenário padrão desenho dos teletubes. A Jojo Todynho gravou um vídeo na cama, como se estivesse despertando pela manhã e a primeira coisa que lembrou foi do sabão da pia. Todo mundo querendo tirar uma casquinha da campanha que se formou em defesa da liberdade de oferecer produtos contaminados ao público.

 

O mais lamentável de tudo é que não foram as lideranças fascistas expressivas que começaram essa coisa maluca. Os políticos, influencers e subcelebridades da direita saíram correndo atrás de um movimento espontâneo e orgânico, extremamente forte, que explodiu nas redes logo que a notícia se espalhou. De uma hora para outra, uma enxurrada de vídeos de pessoas anônimas furiosas com a ANVISA inundou a internet, defendendo o fabricante de uma imaginária perseguição do governo Lula contra empresários bolsonaristas. Um show de horrores começou a tomar conta das redes, com pessoas ensandecidas protagonizando cenas que extrapolam os limites do absurdo. Em uma rápida pesquisa nas redes sociais, o leitor vai poder encontrar consumidores enchendo o carrinho no supermercado com detergente para um ano ou mais de consumo. Várias pessoas se filmaram tomando banho, lavando o cabelo e até os dentes com o sabão da pia da cozinha. Vi uma senhora usando o detergente para lavar um frango antes do preparo. Um sujeito chegou a aparecer sorvendo generosas talagadas do produto. Depois de orar para pneu, pedir ajuda a extraterrestres, agora a modinha é lamber sabão! O ridículo extremo a princípio pode nos levar ao riso, e essa turma bem que merece o deboche, mas no fundo é muito triste. Imagine uma criança assistindo o pai bebendo detergente! O que se passa na mente dessas pessoas?

 

Na verdade, não pensam lá grande coisa, são os primeiros representantes de uma nova espécie de hominídeos que está surgindo no planeta, o Homo stupidus stupidus, que, segundo a hipotese do doutor Vittorino Andreoli  (Homo stupidus stupidus: l’agonia di una civilitá), está se constituindo com a destruição da capacidade de desenvolver o pensamento crítico, operada pela preponderância das informações disseminadas no meio digital sob o controle dos algoritmos impostos pelas grandes corporações. A tese de Andreoli não visa desumanizar essas pessoas, como faz o fascismo com seus elementos discordantes para justificar sua perseguição. Ao contrário, é um alerta para a necessidade de preservar a racionalidade e privilegiar o conhecimento científico, embotados continuadamente pela esmagadora e agressiva ofensiva da desinformação. O fanatismo incutido nessas pessoas as faz desprezar milênios de civilização, para mergulhar no mundo da pós-verdade, em que se transformam em um rebanho dócil ou furioso, de acordo com a orientação que recebem em sua bolha.

 

Na minha visão, o evento do detergente traz um elemento novo e extremamente preocupante no processo. Diferente do que ocorreu quando velhotes e obesos começaram a se esborrachar no chão pulando em uma perna só na porta de lojas das havaianas, movimento que começou com um forte apelo de lideranças políticas. Desta feita a boiada parece ter passado a frente dos vaqueiros, o vice-prefeito de São Paulo, o senador mineiro, o Véio da Havan e outros parecem ter como que aproveitado uma onda que começou a se formar na base. Um severo alerta de perigo para a sociedade, pois está aberto o caminho para que uma proposta tresloucada qualquer, em condições ideais possa se propagar descontroladamente com consequências muito além do que se poderia prever. No medievo a Santa Inquisição julgava e queimava as bruxas, mas a perseguição continuada gerou um fanatismo e uma histeria, que levou pessoas comuns a acusarem e queimarem suas próprias bruxas, em suas comunidades, prescindindo da ação oficial da Igreja. Da mesma forma que há mil anos atrás, o criador pode perder comando sobre suas criaturas, e eu não ouso sequer imaginar até que ponto isso poderia nos levar.


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 

 

 

 

 
 
 

Comentários


White on Transparent.png

Inscreva-se no site para receber as notícias tão logo sejam publicadas e enviar sugestões de pauta

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube

Obrigado por inscrever-se!

@2022 By Jornal Pimenta Rosa

bottom of page