Unidos da Tijuca escolhe samba-enredo para o Carnaval 2027
Parceria de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos vence disputa com “A Cabeça do Santo”, enredo inspirado no livro da escritora cearense Socorro Acioli
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Unidos da Tijuca já tem o samba que conduzirá seu desfile no Carnaval 2027. Em uma madrugada marcada por emoção, poesia e celebração, a escola do Borel escolheu a composição da parceria formada por Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos como vencedora da disputa. O samba será a trilha sonora de “A Cabeça do Santo”, enredo que levará para a Marquês de Sapucaí uma história inspirada no romance homônimo da escritora cearense Socorro Acioli, presente na grande final.
A escola amarelo-ouro e azul-pavão, que no último Carnaval levou à Avenida a trajetória de Carolina Maria de Jesus, mantém a literatura como fonte de inspiração para seu próximo desfile. A obra de Acioli, publicada em 2014 e transformada em best-seller, parte de uma história baseada em um acontecimento real no município de Caridade, no sertão do Ceará: uma estátua de Santo Antônio que permaneceu inacabada, sem a cabeça.
A situação incomum despertou a imaginação dos moradores e deu origem a diferentes histórias, crenças, hipóteses e manifestações de fé. Com o tempo, a estátua tornou-se referência cultural e turística da cidade. É desse universo de religiosidade popular, humor, desejo e imaginário nordestino que a Unidos da Tijuca partirá para construir seu desfile de 2027.
Do sertão à Sapucaí
Primeiro carnavalesco de sua trajetória na Unidos da Tijuca, Lucas Milato propõe transformar a história do santo sem cabeça em uma narrativa carnavalesca atravessada pelas tradições populares. Entre romeiros, preces, simpatias, festas juninas e mulheres movidas pela paixão, a escola pretende construir uma grande contação popular. O universo criado por Socorro Acioli será transportado para a Avenida em uma viagem que mistura fé, amor, cultura nordestina e fantasia. O carnavalesco destacou a importância da escolha do samba para dar unidade ao projeto.
“Escolher o samba-enredo que vai nos conduzir na Marquês de Sapucaí é sempre um grande desafio porque a gente precisa entender o que consta no nosso enredo, na nossa sinopse, no desenvolvimento e no conjunto como um todo que pensamos para o nosso desfile.”
Segundo Milato, as quinze composições inscritas apresentaram diferentes possibilidades para contar a história, tornando a decisão especialmente difícil. Para ele, a obra escolhida representa uma decisão alinhada ao projeto que a escola prepara para o próximo Carnaval.
Uma vitória marcada pela democratização
A vitória da parceria ganha uma dimensão ainda mais significativa porque Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos são estreantes na disputa da Unidos da Tijuca. Ian Ruas conta que chegou ao concurso motivado pelas novas regras adotadas pela escola, que reduziram os custos tradicionalmente associados às disputas de samba-enredo e ampliaram a possibilidade de participação de compositores sem grande estrutura financeira.
Produtor musical e compositor, Ian afirma que começou a escrever sambas após retornar ao Brasil, depois de ter vivido parte da vida no exterior. A relação com a música, porém, vem de família: seu pai também era compositor. A composição vencedora nasceu, segundo ele, de uma conexão imediata com o enredo.
“Uma história muito carregada de afeto, sentimento e emoção permeada pelo universo nordestino.”
O compositor afirma que escreveu o samba rapidamente e decidiu inscrevê-lo justamente porque as novas regras tornaram a competição mais acessível.
A Unidos da Tijuca adotou medidas para reduzir a desigualdade econômica entre as parcerias, entre elas a proibição da produção de videoclipes próprios, a limitação do número de microfones utilizados pelos cantores, a proibição de camisas personalizadas, bandeiras, bolas e outros artefatos tradicionalmente empregados para mobilizar torcidas.
A escola também reafirma o compromisso de destinar 100% da premiação aos compositores do samba vencedor, iniciativa apresentada como pioneira entre as agremiações que realizam disputas de samba-enredo no Carnaval carioca.
Última escolha em uma casa histórica
A escolha do samba de 2027 também encerrou um capítulo da história recente da Unidos da Tijuca. A final aconteceu na quadra do Clube dos Portuários, espaço que abrigou a escola durante mais de três décadas.
Com uma futura mudança de quadra, a madrugada marcou a despedida das disputas de samba naquele endereço. A partir de agora, “A Cabeça do Santo” passa a representar não apenas o enredo que a escola levará para a Avenida, mas também o início de uma nova etapa de sua trajetória.
A escolha ainda reforça uma característica que vem ganhando espaço no Carnaval contemporâneo: a aproximação entre literatura e samba-enredo. Depois de Carolina Maria de Jesus, a Unidos da Tijuca volta a buscar na palavra escrita a matéria-prima para construir imagens, personagens e narrativas na Avenida.
Em 2027, a escola pretende transformar a história de uma estátua sem cabeça em uma celebração de fé, desejo e cultura popular — numa espécie de oração carnavalesca pelo encontro entre a Tijuca e o público da Marquês de Sapucaí.
Confira a letra do samba vencedor:
Autores: Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos
MAINHA, DO CÉU, VEM ME ABENÇOAR
MAINHA, ME GUARDA EM TEU COLO
A LUZ DA SAUDADE VAGUEIA NO OLHAR
NO BREJO, A CASINHA, O SERENO
MEMÓRIAS QUE O TEMPO NÃO PODE APAGAR
A FÉ QUE DEIXASTE A MIM, ACALMA MINHA SOLIDÃO
AINDA QUE O MEDO MACHUQUE MEU CORAÇÃO
DELÍRIOS PLANTADOS EM TERRA RACHADA FLORESCEM
NUM RASTRO DE DOR
SERÁ QUE A ESTRADA ESCONDE O SEGREDO DO AMOR?
SERÁ QUE A ESTRADA REVELA O SEGREDO DO AMOR?
VÁ DE RETRO BELZEBU, NÃO ME VENHA ASSOMBRAR
PADIM CIÇO ME PROTEJA, SÃO FRANCISCO VAI CURAR
NAS VEREDAS DA ILUSÃO, SERTÃO JÁ VIROU MAR
QUEM CULTIVA CARIDADE, CARIDADE VAI ACHAR
Ê, BATUQUE EM TERREIRO DE ARRAIÁ!
GINGADO, BALÃO, FESTIM, PANELA DE MUNGUNZÁ
ABRE A RODA QUE O CABRA INCORPOROU
CABEÇA DO SANTO HERDEI, CABEÇA DO SANTO SOU!
PRECES DE NATIVAS EM CORTEJO
VOZES DE ESPERANÇA E DEVOÇÃO
GUIADO PELO FOGO DO DESEJO
OFEREÇO MINHAS BÊNÇÃOS À MAIS PURA ADORAÇÃO
Ô TOINHO, MEU PAI, PEÇO PERDÃO!
Ô TOINHO, MEU PAI PEDE PERDÃO!
TIJUCA, AO LUME DO TEU CANDEEIRO,
O SONHO DE UM SIMPLES VAQUEIRO, QUE MÃE BATIZOU SAMUEL
TIJUCA, MILAGRE ENCONTREI EM ROSÁRIO
NO RIO, EM TEU SANTUÁRIO,
MEU JUAZEIRO É O CHÃO DO BOREL!
EM TERRA DE FÉ, BROTOU
O FRUTO DA ORAÇÃO
TRAZ VIOLA, MEU SINHÔ, A SANFONA ANUNCIOU
TEM FESTANÇA NO SERTÃO
(VEM SAMBAR NO MEU BAIÃO)





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