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Zecka, a coragem e o orgulho de se reinventar e superar os desafios

No futebol a idade é cruel, principalmente para os goleiros. No caso de Zecka, abandonar as quadras de futsal foi devastador, mas não o impediu de seguir seu sonho



Aos 53 anos, José Sebastião, paulistano e goleiro, ainda tem fome de títulos e a certeza de que pode contribuir ainda muito mais para o Bulls Football SP, um dos principais timos da Ligay Nacional de Futebol, que congrega as equipes LGBT. Atualmente, por conta da pandemia, o foco está nos treinos, toda sexta-feira, para garantir o troféu de campeão da temporada de 2022.


Entretanto, que o vê cheio de vitalidade no campo, desconhece os caminhos que teve de percorrer, Com o sonho de ser jogador de futebol desde criança, começou nos campos de igreja, nos campinhos de terra, por volta dos 10 anos. Mesmo sem dinheiro para compras boas chuteiras, fez diferença, o que lhe deu energia para continuar trilhando o sonho de ser um jogador profissional.


"A falta de bons equipamentos não me impediu de, aos 16 anos, pegar as minhas coisas e ir fazer um teste na peneira do São Paulo Futebol Clube, mas não fui selecionado. Isso não tirou o meu desejo de ser jogador e continuei a jogar nas quadras da cidade", afirmou Zecka.


Como o futebol de campo não rendeu frutos, investiu no Futsal. Ao longo da carreira defendeu vários times e empresas, como Unibanco, ACM Santo Amaro, Daido Corporation, Ressaca do Real e Ceariba, entre outros, onde conquistou vários títulos.


"A melhor lembrança que tenho dessa época foi um dia que a minha mãe foi assistir a uma partida. Era final de campeonato e levamos o título. O troféu não teve tanta importância quanto o olhar de orgulho da minha mãe me vendo jogar. Até hoje aquele dia está vivo na memória", frisou.


Etarismo


Apesar de ser gay, nunca se assumiu no futebol. Com isso, conseguiu fugir do preconceito de gênero. Entretanto, não conseguiu escapar de um outro tipo de discriminação, ainda mais cruel: o etarismo. Mesmo com todos os reflexos em dia e mostrando sua qualidade nas partidas, aos 48 anos começou a ouvir comentários sobre ser velho para a profissão.


"É muito chato você fazer sempre o melhor e ouvir coisas tipo 'O Zecka não é o mesmo de antes' ou 'Quem te viu, quem te vê, heim?'. São coisas que te desmotivam e desencorajam de seguir no esporte, abalam a sua confiança", disse.


Bulls


Vendo uma reportagem sobre um time LGBT que havia sido criado no bairro do Ipiranga, em São Paulo, decidiu trocar as quadras do Futsal, onde havia conquistado vários títulos, pelo futebol society (Fut7). O Bulls Football SP, fundado em 2017, após trocar mensagem com os responsáveis pelo time e conhecer o local, tornou-se um dos goleiros do time, que até hoje continua jogando. O Bulls atualmente ocupa a terceira posição no ranking da Ligay.


Ao longo dessa jornada já carrega em seu currículo, pelo Bulls, o título do Champions Alliance (Curitiba); Jogos da Diversidade (São Paulo); e 2º Champions LIgay (Porto Alegre). Conquistou ainda com o time o segundo lugar do 4º Champions Ligay ( Brasília); e terceiro lugar no 5º Champions Ligay (Belo Horizonte).


"Hoje, tenho 53 anos e sei dos meus limites. Não me vejo diferente dos demais jogadores e sei que a única diferença é a idade. Enquanto eu tiver forças para pular numa bola, me levantar e pular de novo, eu continuarei jogando. Manter o vigor e a mente jovem é questão de escolha, de trabalhar para isso, de saber se reinventar e ter orgulho de estar sempre construindo novos caminhos", concluiu o goleiro.

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