ÚLTIMA NAVE: QUANDO ENVELHECER TAMBÉM É UM ATO DE LIBERDADE
- Toni Reis

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Toni Reis*
“O velho deve estar onde quiser.”
Talvez essa seja uma das frases mais simples e, ao mesmo tempo, mais revolucionárias que podemos dizer em uma sociedade que ainda não aprendeu a respeitar o envelhecimento.
Tenho 62 anos. David tem 68. E nós vamos ao show A Última Nave, da Xuxa, em Curitiba.
E já temos uma questão filosófica para resolver: com que roupa dois homens dessa idade devem ir ao show da Xuxa?
A resposta é estoica:
Com a roupa que quisermos.
Porque envelhecer não deveria significar pedir autorização para continuar vivendo.
Epicteto nos ensinou que existem coisas que estão sob nosso controle e outras que não estão. Não controlamos o olhar do outro. Não controlamos a língua do preconceituoso. Não controlamos o julgamento de quem acha que uma pessoa velha deve ser discreta, silenciosa e quase invisível.
Mas controlamos nossa atitude diante disso. E eu escolho continuar dançando. Continuar cantando. Continuar me emocionando. Continuar amando. Continuar usando a roupa que eu quiser. Continuar ocupando os espaços que quiser. Continuar sendo quem sou.
É por isso que compreendo profundamente Xuxa quando ela questiona o tratamento diferente dado a homens e mulheres que envelhecem.
Eu admiro Ney Matogrosso. Muito.
Ney foi um revolucionário. Em tempos de ditadura, quando o Brasil queria controlar corpos, comportamentos, desejos e pensamentos, ele apareceu no palco como uma espécie de terremoto cultural. Usou o corpo, a voz, a roupa e a arte para dizer que ninguém tinha o direito de determinar como um homem deveria se apresentar.
Ele abriu caminhos.
E talvez seja justamente por admirar Ney que eu não consigo aceitar que a liberdade conquistada por um homem seja negada a uma mulher.
Xuxa não estava dizendo que Ney não deveria vestir o que veste. Ela estava perguntando por que ela é julgada por fazer algo semelhante. E essa pergunta nos leva diretamente ao etarismo.
O etarismo é uma forma de preconceito contra a idade. É quando uma sociedade olha para uma pessoa mais velha e começa a dizer o que ela pode ou não pode fazer.
Pode trabalhar, mas não pode ousar. Pode existir, mas não pode aparecer. Pode sair de casa, mas não pode se vestir como quiser. Pode envelhecer, mas não pode ser sensual. Pode respirar, mas parece que não pode desejar.
É como se depois de determinada idade a sociedade entregasse ao indivíduo uma cartilha:
“Agora você precisa se comportar como velho.”
Mas quem escreveu essa cartilha?
E quem deu a alguém o direito de decidir quando a juventude termina e quando a liberdade deve acabar?
Sêneca, escrevendo sobre a brevidade da vida, nos lembra de uma coisa essencial: a vida não é necessariamente curta; nós é que frequentemente a desperdiçamos.
E talvez um dos maiores desperdícios da velhice seja passar os anos restantes tentando corresponder às expectativas de pessoas que não terão de viver a nossa vida.
Eu não quero desperdiçar a minha.
Quero viver. Quero rir. Quero viajar. Quero estudar. Quero amar. Quero ir ao show da Xuxa. Quero cantar Ilariê. E, se der vontade, quero dançar. Se alguém achar ridículo, paciência.
Epicteto provavelmente diria que essa opinião pertence ao outro, não a mim.
Marco Aurélio, por sua vez, nos convidaria a olhar para a brevidade da existência e perguntar: quanto da nossa vida estamos entregando ao julgamento alheio?
Essa pergunta é devastadora.
Porque talvez passemos boa parte da juventude tentando agradar os outros e, justamente quando envelhecemos e deveríamos estar mais livres, continuamos presos.
Presos à roupa. Presos ao corpo. Presos à idade. Presos ao “o que vão pensar”. Presos ao “isso não fica bem para alguém da sua idade”.
Pois eu digo:
Fica bem, sim. Fica bem porque é meu. Fica bem porque é meu corpo. Fica bem porque é minha vida. Fica bem porque eu não preciso da autorização de ninguém para existir.
E isso vale para a mulher de 60, 70 ou 80 anos que quer colocar uma roupa curta. Vale para o homem de 70 que quer usar uma roupa extravagante. Vale para a mulher que quer pintar o cabelo de azul. Vale para o homem que quer dançar. Vale para quem quer namorar. Vale para quem quer começar uma faculdade aos 65. Vale para quem quer se apaixonar aos 80. Vale para quem quer subir num palco aos 90.
A velhice não pode ser uma sentença de invisibilidade.
E existe algo profundamente cruel quando uma sociedade aceita a liberdade de um homem, mas transforma a liberdade de uma mulher em motivo de chacota.
É aí que o etarismo encontra o machismo. E é aí que precisamos resistir. Não precisamos colocar Xuxa contra Ney. Não precisamos escolher um e abandonar o outro. Podemos amar os dois.
Podemos reconhecer a genialidade revolucionária de Ney e, ao mesmo tempo, reconhecer a injustiça que Xuxa denuncia.
Aliás, talvez essa seja a verdadeira maturidade: conseguir defender alguém que amamos sem precisar transformar outra pessoa em inimiga.
Eu fico com Xuxa nessa questão.
E continuo com todo o meu carinho, respeito e admiração por Ney Matogrosso.
Porque a liberdade não pode ser propriedade de uma geração, de um gênero ou de uma estética. Liberdade ou é para todos, ou não é liberdade.
E talvez seja esse o grande ensinamento estoico diante do preconceito contra os velhos.
Não podemos controlar o tempo. Não podemos impedir que o cabelo fique branco. Não podemos negociar com o calendário. Não podemos parar o relógio.
Mas podemos decidir como atravessar o tempo. Podemos envelhecer com dignidade. Com coragem. Com humor. Com desejo. Com inteligência. Com irreverência. Com amor. Com militância.
E, sobretudo, com liberdade.
Marco Aurélio escreveu para si mesmo que nossa vida é aquilo que nossos pensamentos fazem dela.
Então eu escolho pensar que 62 anos não são o começo do fim. São 62 anos de histórias. De lutas. De amores. De erros. De acertos. De perdas. De encontros. De resistência.
E ainda há muito chão. Ainda há muita música. Ainda há muito beijo. Ainda há muita dança. Ainda há muita luta. Ainda há muita vida.
Por isso, deixem as velhinhas dançarem.
Deixem os velhinhos dançarem.
Deixem as pessoas usarem a roupa que quiserem.
Deixem as pessoas amarem quem quiserem.
Deixem as pessoas serem felizes do jeito que conseguirem.
Porque ninguém deveria chegar à velhice para descobrir que passou a vida inteira tentando parecer aceitável aos olhos dos outros.
Eu quero chegar mais longe podendo olhar para trás e dizer:
Eu vivi.
E, se for possível, quero dizer isso enquanto estiver dançando.
Então, Xuxa, lá vamos nós.
Eu e David estaremos no seu show em Curitiba.
Talvez não tenhamos mais idade para sermos Paquitos. Mas ainda temos idade suficiente para sermos Paquitos velhos, felizes e completamente sem vergonha de envelhecer.
Porque a última nave não é sobre o fim.
É sobre embarcar.
E nós vamos embarcar. Com a roupa que quisermos. Com a idade que temos. Com as rugas que conquistamos. Com as histórias que carregamos.
E com a certeza de que envelhecer é inevitável; envelhecer sem liberdade, não.
Porque, no fim, talvez a verdadeira juventude seja simplesmente esta:
não ter vergonha de continuar vivo.
*Toni Reis - Professor e Doutor em Educação, ativista dos direitos humanos há mais de 40 anos, diretor executivo da Aliança Nacional LGBTI+, presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH) e fundador do Grupo Dignidade.





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