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A Batalha dos Discursos

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 28 de set. de 2025
  • 5 min de leitura
Ilustração de Felipe Mendes - @ocoletordehistorias
Ilustração de Felipe Mendes - @ocoletordehistorias

*Eduardo Papa


Terça-feira pela manhã, sentei-me em frente ao computador, com papel e caneta para analisar o discurso de Lula na ONU. Quando fui almoçar já tinha mudado o foco da análise, pois nosso presidente fez um discurso impecável, digno das tradições da diplomacia brasileira, aproveitando um de seus pontos fortes - a oratória. Já comentei por aqui que Lula, embora não tenha o mesmo desempenho em debates, quando deita falação faz bonito. O Brasil abriu a assembleia em grande estilo, Lula foi firme ao reafirmar a soberania nacional sem ser agressivo, e abordou com propriedade os diversos temas caros à diplomacia brasileira: a mudança climática e a COP em Belém; o multilateralismo nas relações internacionais, em contraponto a sufocante hegemonia dos EUA; a defesa da democracia contra o avanço do fascismo no mundo; o apoio ao povo palestino no genocídio perpetrado pelo sionismo em Gaza. Enfim, nosso presidente foi brilhante, com uma atuação reconhecida pelos seus pares, e que encheu nossa nação de orgulho.

 

Estava organizando minhas anotações para escrever sobre a fala de Lula, quando Donald Trump começou a discursar, imediatamente percebi que esse era o discurso a ser analisado.  Quase uma hora (55 minutos) falando bobagens, e cobrindo de vergonha os estadunidenses com um mínimo de capacidade de fazer uma análise crítica. Não foi por acaso que toda a imprensa internacional destacou o fato de que o Brasil saiu muito bem na foto, e o nosso presidente ficou com a imagem de ser o adulto na sala, ao ser sucedido por um homem imaturo de oitenta anos, que comprovou que a idade por si só não resulta em sabedoria ou dignidade, como veremos.

 

Fake news! Trump mentiu sobre todos os assuntos que abordou. Mentiu sobre as relações comerciais dos EUA com mundo, inclusive sobre a relação com nosso país, repetindo que o Brasil tinha superávit comercial na relação com os EUA, uma lorota sobejamente desmentida em toda a imprensa mundial. Mentiu sobre as guerras contínuas que império impõe ao mundo, mantendo a tradição dos EUA de abandonar seus aliados, e fugir do campo de luta alardeando vitória (como fizeram na Coréia, no Vietnã, Afeganistão e agora na Ucrânia). Mentiu sobre a economia de seu país, ignorando os efeitos deletérios de sua política protecionista sobre a inflação e nível de emprego em seu país. Mentiu sobre a imigração, ofendendo milhões de pessoas que acreditaram no sonho americano, e hoje vivem o pesadelo da escalada do fascismo. Mentiu sobre Gaza, justificando e apoiando o extermínio sistemático do povo palestino pelo Estado terrorista de Israel.

 

Inadequação. Trump utilizou o púlpito da ONU para fazer campanha eleitoral, falou para os representantes do mundo como se fossem os eleitores da Flórida ou do Texas. Surpreendeu todas as delegações com críticas a seu antecessor e a entediante exposição, em tom extremamente indecoroso, de detalhes sobre a política paroquial dos EUA. Mostrando-se deselegante e inoportuno e reafirmando para o mundo, que os EUA olham apenas para o próprio umbigo, cultivando o mito da excepcionalidade de seu país, com total desprezo pelo restante da humanidade.

 

Vaidade incontida. Trump comprovou que tem um ego maior que o topete, dedicou um tempo enorme ao elogio de si próprio, que fazia da maneira mais desprezível, desqualificando a terceiros. Cheguei a gargalhar quando ele apresentou, na cara dura, sua postulação a receber o Nobel da Paz, deixando claro que esse verdadeiro poço de vaidade cor de laranja, morre de inveja pelo fato que Obama (seu principal desafeto político) ganhou um e ele não. O presidente estadunidense procura no mundo a posição do Bully boy, o valentão da turma que busca impor seus desejos pela força, sem compreender que o mundo mudou, e seu país não tem mais a condição de impor seus ditames sem oposição. Xi Jinping e Putin devem ter morrido de rir ao ver a arrogância e o primarismo do bofe.

 

Grosseria. Trump começou seu discurso ofendendo o anfitrião sem a menor compostura. O Secretário Geral da ONU teve que ouvir que o teleprompter do plenário não funcionava, que ele ficou preso na escada rolante (não falou como piada não), que a reforma do prédio havia sido superfaturada, e que a empresa dele faria melhor. Se analisarmos bem, a referência feita ao Brasil, tão saudada pela imprensa brasileira, foi desrespeitosa e eivada de um injustificado sentimento de superioridade. Até mesmo o gestual e a postura corporal denotavam tratar-se de uma pessoa de maus modos e agressiva.

 

Trump vai mal das pernas, não falo da grave doença que o acomete, o deixando tão trôpego quanto nosso senador Magno Malta, mas do andamento de seu governo. Sua popularidade despenca, da mesma maneira que o valor do dólar e a credibilidade dos EUA no mundo. Ontem, em Portlad no Oregon uma pessoa foi baleada em um protesto contra o ICE e ocorrem protestos violentos em várias cidades, inclusive na capital. Sua política errática parece o levar a uma derrota eleitoral e a perder a maioria no congresso, no ano que vem. O seu recuo com relação ao Brasil, articulado por Joesley Batista, é uma prova de debilidade. Acho risível o temor, de certa parte de nossos comentaristas políticos, quanto ao encontro, e possível negociações entre Trump e Lula, que tem tudo para jantar esse otário, jantar não, vai pegar a sobremesa do banquete festivo de Putin e Xi, que teve o TACO como prato principal.


A conferir é claro, mas o que já está gostoso de ver é o Eduardo Bolsonaro com a bunda na janela, duvido que esse boçal conheça a célebre frase de Henry Kissinger de que “Ser inimigo dos EUA é muito perigoso, mas ser amigo pode ser mais ainda.” Os bolsonaristas estão desnorteados com a possível mudança na posição dos EUA, alguns cômicos chegam a sugerir uma jogada oculta para humilhar o Brasil, por trás de um recuo só aparente. Mas o fato é que os estão passando por maus bocados, ridicularizados por amigos, parentes, colegas de trabalho, e isolados cada vez mais em suas bolhas na internet. E o resultado de pessoas intelectualmente medíocres, convencidas de que lutam em uma cruzada do bem contra o mal, pode ser muito perigoso. Foi divulgada, nessa sexta-feira, a prisão de um elemento que tentou entrar no STF com uma faca de açougueiro, no dia da condenação de Bolsonaro, e confessou a intenção de matar ministros da casa. Desde a tentativa de explodir uma bomba no aeroporto de Brasília no Natal, que o bolsonarismo vem produzindo terroristas em série.

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 


 
 
 

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