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Caderno Proibido: o livro que revela o António Botto mais ousado e homoerótico

  • Foto do escritor: Pimenta Rosa
    Pimenta Rosa
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Em entrevista ao Pimenta Rosa, o investigador português Vitor Correia fala sobre o inédito publicado após décadas de silêncio, o exílio de Botto no Rio de Janeiro e a potência política de sua poesia



Guardado por décadas nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, Caderno Proibido, de António Botto, chega finalmente ao público como uma peça-chave para a compreensão de um dos poetas mais controversos da literatura portuguesa. Escritos durante o exílio no Rio de Janeiro, nos anos 1950, os poemas revelam um Botto mais direto, confessional e explicitamente homoerótico, distante da imagem de sutileza que marcou parte de sua recepção crítica ao longo do século XX.

Organizador e responsável pela fixação do manuscrito, o investigador português Victor Correia lança luz sobre os motivos que mantiveram a obra inédita por tanto tempo, as dificuldades de trabalhar com documentos fragmentados e o impacto que a publicação provoca na leitura contemporânea do poeta. Em entrevista ao Pimenta Rosa, Correia reflete ainda sobre liberdade sexual, censura, memória literária e os inéditos que ainda permanecem à espera de publicação, entre eles sonetos escritos no Brasil sobre Fernando Pessoa.


Como o senhor explica o fato de Caderno Proibido, apesar de estar guardado na Biblioteca Nacional, nunca ter sido publicado nem incluído nas obras completas de António Botto?

De fato, a obra completa de António Botto já foi publicada, mas Caderno Proibido ficou de fora, o que sempre foi um mistério. Ao longo dos anos, nenhum investigador conseguiu publicá-lo. A explicação mais plausível é a linguagem do livro, bastante ousada e muito explícita do ponto de vista erótico. É possível que a família ou os herdeiros tenham se oposto à publicação durante muito tempo. Hoje, Botto ainda não está em domínio público — não se passaram 70 anos da sua morte —, e os direitos foram sendo transmitidos entre gerações. Provavelmente, os herdeiros mais recentes autorizaram a publicação, o que tornou o livro finalmente viável.


Em que medida esses poemas homoeróticos, mais explícitos e confessionais, diferem da obra já conhecida de Botto? E como o senhor avalia hoje essa linguagem?

Eles diferem de duas maneiras principais. A primeira é que a obra anterior de Botto foi muito mais trabalhada. Esses poemas não passaram por um processo de revisão e lapidação. É provável que ele pretendesse reformulá-los e aperfeiçoá-los, mas isso não aconteceu porque Botto morreu em um acidente de automóvel no Rio de Janeiro, onde viveu seus últimos anos. A segunda diferença é que estes são os poemas mais explícitos de toda a sua produção homoerótica. Para algumas pessoas, podem até ser considerados obscenos.Hoje, porém, essa linguagem é avaliada de forma muito mais natural. Tanto que o livro foi publicado e está à venda sem grandes controvérsias. No passado, seria impensável. Atualmente, esse tipo de expressão é compreendido como parte da vivência do amor e da sexualidade. Nem todos os poemas são igualmente explícitos, mas há, sim, uma linguagem mais direta e realista.


De que forma o exílio no Rio de Janeiro e o conservadorismo moral do Estado Novo influenciaram a escrita e os temas centrais desses poemas?

O conservadorismo moral do Estado Novo teve um peso enorme. O exílio no Rio de Janeiro foi decisivo, porque, apesar de o Brasil também ter suas limitações naquele período, o Rio sempre teve uma tradição de maior abertura, inclusive no campo da liberdade sexual. Botto encontrou no Rio uma liberdade que não tinha em Lisboa. Ele conheceu pessoas, viveu experiências, e isso se reflete diretamente nos poemas. Todos esses textos foram escritos durante o exílio no Brasil. Há referências claras às suas vivências, especialmente em Copacabana. Os temas centrais são a sexualidade, os encontros e as emoções experimentadas nesse período.


Quais foram as principais dificuldades no processo de organização, transcrição e fixação de manuscritos tão fragmentados e dispersos?

A maior dificuldade foi encontrar um fio condutor. Os poemas estavam em folhas soltas; alguns começavam em uma página e continuavam em outra, que nem sempre estava junto. Em certos casos, foi difícil identificar a sequência correta dos textos.Alguns poemas estavam completos em uma única folha, mas outros exigiram um trabalho de reconstituição, feito a partir da linguagem, da forma e do estilo da escrita. Felizmente, não tive dificuldades com a transcrição em si, porque a caligrafia de António Botto é bastante legível.


Que lacuna essa publicação vem preencher na obra de António Botto? E o que muda, a partir dela, na leitura crítica do poeta?

A principal lacuna é o fato de que a chamada “obra completa” de António Botto não estava, de fato, completa. Caderno Proibido sempre foi mencionado, mas nunca publicado. O organizador da obra reunida chegou a afirmar no prefácio que, se Botto não quis publicar aquele livro, ele também não o faria.Mas a obra nunca foi proibida por nenhuma instância oficial. O título é poético. Ela nunca foi censurada porque nunca chegou a ser publicada.O que muda na leitura crítica é a percepção da ousadia de Botto. Muitos o viam como um poeta mais sutil, mais implícito. Esses poemas revelam alguém capaz de dizer as coisas de forma direta, sem rodeios. Já mais velho, Botto parecia menos preocupado com julgamentos morais e teve mais coragem para escrever dessa forma.


Que diálogo Caderno Proibido estabelece com o leitor contemporâneo? E o que ainda podemos esperar da publicação de outros inéditos de António Botto?

O diálogo é muito claro: a defesa da liberdade sexual. Vivemos hoje um tempo de maior liberdade, e esses poemas dialogam diretamente com isso. Ao criticar a censura, Botto também defende a liberdade de forma mais ampla.Há, sim, outros inéditos guardados na Biblioteca Nacional. Entre eles, cerca de 40 sonetos escritos no Brasil sobre Fernando Pessoa. Nesses poemas, Botto aborda também as tendências homoeróticas de Pessoa. Eles se conheciam bem, e esses textos podem revelar aspectos pouco discutidos dos desejos homoafetivos de Fernando Pessoa.


O livro já está à venda nas principais livrarias do Brasil?

O livro começou a ser vendido há poucos dias em Portugal. Ainda é cedo para falar em uma edição brasileira. Isso dependerá de um acordo entre a editora portuguesa Guerra e Paz e alguma editora no Brasil.Por enquanto, leitores brasileiros podem adquirir o livro diretamente pelo site da editora Guerra e Paz ou pela livraria online Wook, ambas com envio para o Brasil. É muito provável que o livro venha a ser publicado no país, já que os poemas dialogam intensamente com o Brasil, o Rio de Janeiro e as experiências vividas por Botto aqui. Trata-se também de um testemunho histórico de grande interesse para o leitor brasileiro.



Victor Correia: organizador e responsável pela fixação do manuscrito
Victor Correia: organizador e responsável pela fixação do manuscrito

Mais sobre a obra e o organizador :

  • A obra

Ambientado no calor brasileiro, Caderno Proibido acolhe intensas experiências eróticas; umas talvez sejam imaginadas, outras serão provavelmente reais e autobiográficas. É essa a matéria da compilação que nos traz os poemas mais «chocantes» de António Botto. Para este Caderno Proibido, livro que o autor planeava publicar, tendo morrido antes de o fazer, Botto escreveu poemas sem subterfúgios, carnais e explícitos, podendo mesmo – tudo dependendo da linha vermelha que se escolha – ser considerados pornográficos e obscenos. Muitos leitores, estamos certos, vão deliciar-se com a expressão das mais profundas relações amorosas, dos mais intensos sentimentos, de paixão e de emoção, mas também de ciúme e posse, sexo e emoções estéticas. São esses os poemas que aqui se reúnem com organização, fixação dos textos e prefácio de Victor Correia. Uma obra transgressiva que vem colmatar uma lacuna na edição das obras de António Botto.


  • O organizador

Victor Correia frequentou a Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma – formação em Filosofia. Frequentou também o curso de piano, durante alguns anos, na Escola de Música de São Teotónio, em Coimbra. Licenciado e pós-graduado em Filosofia, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mestre em Estética e Filosofia da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – formações obtidas antes do Processo de Bolonha. Doutorado em Filosofia Política e Jurídica, pela Universidade da Sorbonne, em Paris. Pós-doutorado em Ética e Filosofia Política, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem exercido funções de docência na sua área de formação, além de organizar e apresentar comunicações em várias conferências. É membro de algumas associações científicas e culturais. Publicou livros e artigos em jornais e revistas, nacionais e internacionais.




Ficha Técnica:

Categoria(s): Ficção, Poesia

Nº de Páginas:152

Ano de Edição:Janeiro 2026

ISBN:978-989-576-348-1

Formato:15x23

Capa:Brochada


Fontes:

 
 
 

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