Carta aberta de Toni Reis à Xuxa: um show terapêutico


Por Toni Reis*
Querida Xuxa,
Sábado (26/09), na Arena da Baixada, eu não fui apenas a um show.
Vivi um reencontro comigo mesmo.
Quando a nave apareceu e você surgiu diante de nós, alguma coisa se abriu por dentro. Chorei de alegria, de saudade e também por aquele menino que fui e que ainda vive em mim.
Minha infância e minha adolescência no interior do Paraná foram difíceis. Eu não era o menino que esperavam que eu fosse. Não sabia jogar bola, nem queria aprender. Queria jogar vôlei, estudar, escrever poesia, desenhar e ler. Como dizia minha mãe, eu “despintei a manada”. Diziam que eu era gay antes que eu mesmo entendesse direito o que aquela palavra significava. Eu apenas sabia que era diferente e que, muitas vezes, isso doía.
Ontem, diante de você, aquele menino se sentiu em casa. E o homem de 62 anos que sou hoje pôde abraçá-lo.
Por isso digo que foi um momento terapêutico. Cantei, chorei, ri e me permiti ser, sem pedir licença.
Minha alegria veio acompanhada de lágrimas em duas músicas. Em “Arco-Íris”, você cantou com a nossa bandeira, tão linda porque reúne cores diferentes, todas juntas. Pensei: é isso que é a humanidade. Somos todos brasileiros, somos todos terráqueos, como você tão bem disse. Que coisa linda ver a representatividade ali, no palco e na plateia.
E então veio “Lua de Cristal”, lembrando que podemos sonhar e ser quem somos. A música me encontrou em cheio. Eu sonhei, estudei, continuo estudando e ainda estudarei muito, porque amo aprender. Realizei muitos dos meus sonhos e sigo construindo outros.
Hoje também me sinto bem comigo mesmo. Tenho cuidado da minha saúde, vou à academia e sigo meu tratamento com Mounjaro, ui.
Minha autoestima está mais forte. Sou feliz pelas relações que construí com minha família, meus amigos e meus companheiros de movimento social e de política.
Olho para a vida que tenho e reconheço o quanto caminhei.
Diógenes me inspira a perceber que precisamos de pouco para viver com simplicidade. Schopenhauer me lembra como o querer sem descanso pode alimentar a insatisfação. Hoje tento guardar essas lições: alimentar meus sonhos e viver com o que tenho e com o que preciso, sem ostentação.
Quero ser eu mesmo, com uma vida autêntica, transparente e cheia de afeto.
O show foi grandioso em todos os sentidos. Figurinos, danças, músicas, cenários, luzes e falas se encaixaram com cuidado e profissionalismo. Meu marido David, que é muito crítico com espetáculos, olhou para tudo aquilo e disse: “Nunca vi um show tão bem produzido”.
E eu concordei. A Arena estava cheia, as Paquitas de diferentes gerações trouxeram ainda mais emoção, e a nave parecia carregar, junto com você, as lembranças de tanta gente.
Foi bonito ver pessoas de tantas histórias reunidas: fãs LGBTI+, casais heterossexuais, famílias, mulheres cantando e dançando, gente chorando e sorrindo. Cada pessoa à sua maneira, compartilhando aquele espaço de alegria. Por algumas horas, a gente pôde ser baixinho, altinho e velhinho sem que a idade ou o jeito de ser fossem motivo de vergonha.
E houve também as suas palavras. Você falou sobre sonhar, sobre poder ser quem se é, sobre machismo, racismo, LGBTfobia, capacitismo, especismo, maus-tratos aos animais e a devastação ambiental.
Falou de respeito, liberdade e cuidado com a vida. Eu escutava e pensava: como é possível que ainda haja tanta gente contra direitos tão básicos, contra cotas, contra a proteção das pessoas trans, contra o cuidado com os animais e contra a soberania do nosso país?
Você me fez lembrar grandes lideranças que transformaram a esperança e a dignidade em um chamado público: Mahatma Gandhi, Teresa de Calcutá e Martin Luther King Jr. Naquela noite, suas palavras me pareceram nascer desse mesmo desejo de um mundo mais justo, acolhedor e humano.
Eu sempre gostei de você e admirei sua maneira acolhedora de falar com as pessoas. Também penso em tudo o que você enfrentou desde muito jovem e em como construiu uma trajetória própria, apesar das pressões e das expectativas colocadas sobre você. Ontem vi uma artista no controle do próprio palco, generosa com seu público e consciente da força que tem.
Obrigada, Xuxa, por existir e por nos oferecer essa noite. Obrigado por fazer com que tantos de nós pudéssemos revisitar a infância sem deixar de ser quem somos hoje. O menino que eu fui encontrou a Rainha dos Baixinhos. O altinho e o velhinho que sou também encontraram lugar ali.
Fernando Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos, escreveu: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.” Talvez alguém ache ridícula esta carta. Tudo bem. Ela é uma carta de amor, de gratidão e de memória.
Xuxa, eu te amo. Nós te amamos.
*Toni Reis, 62 anos
Ativista pelos direitos da comunidade LGBTI+ há 43 anos
Casado com David Harrad há 37 anos
Pai de Alyson, Alice e Filipe
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