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NOSSA SENHORA DA APARECIDA ROGAI POR NÓS

Foto do escritor: Eduardo Papa*
Eduardo Papa*
há 11 horas
3 min de leitura
Imagem gerada por IA
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*Eduardo Papa 


Meus leitores habituais sabem que eu sou ateu, mas a religião católica teve muita influência em minha formação como ser humano e cidadão brasileiro: minha avó materna, muito importante na minha infância, que entre outras coisas me propiciou o hábito da leitura, era beata da Igreja do Sagrado Coração de Jesus da Freguesia de Nossa Senhora da Glória; minha formação acadêmica no primário e ginasial foi no Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, de padres barnabitas, e fui muito feliz respeitado e acolhido lá; a despeito de seu passado na colonização do país, na minha juventude, a Igreja de Pedro e Paulo viveu uma saudável transformação, com uma moderna teologia aproximando-se dos mais humildes, foi Dom Evaristo Arns e o rabino Sobel que promoveram um culto ecumênico em intenção da alma de Wladmir Herzog, que marcou o início do fim da ditadura , na Praça da Sé em São Paulo.

 

Conheço sobejamente a mitologia cristã, e considero que Jesus de Nazaré foi de fato um dos homens mais importantes da história da humanidade, ele, e seus competentes seguidores, trouxeram uma revolução no pensamento da época, elevando o amor e a compaixão como elementos na construção de preceitos morais. No antigo testamento, já definido pelo pastor Caio Fábio como manual de genocídio, imperava um Deus cruel, que depois de expulsar Adão e Eva do paraíso por um motivo banal, dedicou milênios a castigar a humanidade, mandando praga de gafanhotos, dilúvio e toda sorte de desgraças. O cristianismo trouxe o perdão para o radar das pessoas comuns, e a justiça como imposição moral aos governantes, criando uma ética nova, em que Davi não poderia mandar Urias para a morte certa, com o intuito se apoderar de sua esposa.

 

O papel dos santos no cristianismo ganhou importância, quando a expansão da fé foi alcançando os limites da civilização, foi elemento crucial na conversão dos “bárbaros” na Europa, de certa maneira simplificando a sua complexa estrutura (santíssima trindade, espírito santo, etc.) para a difusão entre povos com menos sofisticação intelectual. E alguns desses homens santos, foram de fato pessoas iluminadas. Um homem como Francisco de Assis, que se preocupava com os animais, em um mundo brutal em que todos os seres estavam sempre sujeitos à violência, é inegavelmente um ser humano especial. A devoção a Maria, fortemente estimulada pelo Vaticano na Idade Média, para servir de contraponto ao protagonismo feminino nas canções de gesta, resultou em uma valorização das mulheres. E vamos combinar, que história linda, da jovem inocente do momento da concepção imaculada, até a mãe sofrida que envolve seu filho supliciado em sua mortalha.

 

Já dizia Gilberto Freire que cunhã, a mulher índia, foi a mãe do Brasil, e até hoje as mulheres brasileiras, a despeito do horror a que estão sujeitas, são o alicerce de nossa sociedade, são mulheres com a história como a de D. Lindu, a mãe de Lula, que existem em todas as classes sociais, que sustentam a nossa civilização. Nada mais justo, portanto, que a santa padroeira do Brasil seja uma mulher, e uma mulher preta, cuja imagem foi encontrada abandonada no leito de um rio. Não é por acaso que a conspurcação da imagem da Santa Maria de Aparecida faz parte do cardápio dessas igrejas neopentecostais. Quem não se lembra da imagem de um pastor da Igreja Universal chutando a imagem da santa, que chocou o país. Nem é preciso ir tão longe no tempo para conferir a emulação incutida nessas pessoas, são disponíveis na internet imagens de bolsonaristas bêbados promovendo uma arruaça na porta da Basílica em Aparecida. Essa gente trevosa e retrógrada não pode aceitar que uma mulher seja relevante ou esteja no centro de qualquer coisa. Muito menos no paraíso do seu papai do céu.

 

Podem desmentir o quanto quiserem, mas o neopentecostalismo move sim uma guerra religiosa por hegemonia contra o catolicismo e as religiões de matriz africana. A Teologia do Domínio tem no centro de seu projeto sufocar todas as demais denominações religiosas, e projetar esse poder espiritual para a conquista do poder temporal. Uma gente que quer nos fazer viver na vida real os “Contos de Aia” e enricar com isso. E a proposta de destituir a padroeira não é nova, já tramitou na Câmara proposta por um deputado ligado ao bolsonarismo. Esse fundamentalismo desvairado precisa de um limite! Eu não vou ser hipócrita de dizer que peço pela intervenção da santa, o que não faz sentido em minha cosmovisão, mas garanto que ela pode contar comigo para enfrentar essa gente horrível, se necessário levantando a sua imagem para exorcizar esses demônios modernos, que até a fé do povo querem roubar.


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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