“Conto de Falhas”: quando mulheres reescrevem os próprios roteiros e transformam imperfeições em potência
- Pimenta Rosa
- 18 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Livro de Leticia Campos e Kátia Callaça revisita contos de fadas sob a ótica do feminismo e inaugura, por financiamento coletivo, uma nova forma de narrar o que significa ser mulher hoje

Nasce no Rio um projeto literário que combina humor, afeto, crítica e coragem para revisitar algumas das narrativas mais antigas do imaginário coletivo. Conto de Falhas, obra criada pela escritora Leticia Campos e pela artista visual Kátia Callaça, se propõe a desmontar os contos de fadas e reconstruí-los a partir de uma perspectiva feminista, contemporânea e provocadora. Em pré-campanha de financiamento coletivo, o livro já desperta curiosidade e mobiliza leitoras que buscam histórias onde mulheres deixam de ser figurantes e assumem, enfim, o papel de protagonistas.
Em fase de pré-lançamento por financiamento coletivo, Conto de Falhas já desperta a identificação de leitoras que buscam histórias mais próximas da vida real — com suas contradições, potências e escolhas próprias. O ponto de partida surgiu de forma inesperada. Kátia mostrou a Leticia algumas ilustrações que traziam princesas cansadas de esperar por resgate, bruxas lúcidas e personagens que já não cabiam nos modelos tradicionais. O convite para transformar aqueles desenhos em palavras deu origem a um diálogo criativo profundo — e ao entendimento de que, por trás dos contos aparentemente inocentes da infância, havia roteiros que ensinavam meninas a aguardar, não a agir.
Para apresentar o processo criativo, as motivações e as reflexões que atravessam a obra, Pimenta Rosa conversa com Leticia e Kátia em uma entrevista ping-pong que revela o que está por trás dessa parceria e do olhar feminista que redesenha o imaginário das antigas heroínas.
PIMENTA ROSA: Como nasceu o Conto de Falhas e o desejo de reescrever os contos de fadas sob a ótica do feminismo?
Letícia Campos: O Conto de Falhas nasceu de uma provocação da Kátia para que eu transformasse em palavras algumas ilustras que deram início ao esqueleto do livro. Conforme fui pensando, estudando, desenvolvendo as ideias e transformando em texto percebi que as histórias que moldaram a nossa infância eram, na verdade, roteiros que nos ensinavam a esperar — e não a agir. Eu sempre amei narrativas, mas um dia entendi que grande parte delas nos reduzia a personagens passivas, frágeis e dependentes.
Quis reescrever os contos porque senti falta de ver mulheres que se levantam, que questionam, que rasgam a fantasia e mostram a própria voz. Nasceu do desejo de mostrar que a mudança é possível — e urgente.
Kátia Callaça: Algo aconteceu com as princesas ingênuas, que esperavam ser salvas por príncipes ou fadas madrinhas. O conto mudou, e mulheres imersas em transformações culturais exigem novas leituras das representações femininas equivocadas, assim nasce o Conto de Falhas.
PIMENTA ROSA: O livro propõe transformar “falhas” em histórias. Que significado isso tem para vocês e para as mulheres que se reconhecem nessas narrativas?
Letícia Campos: Para mim, transformar falhas em histórias é um ato político e profundamente humano. É assumir que nem tudo precisa ser perfeito para ser verdadeiro — e que existe força justamente naquilo que tentaram chamar de fraqueza.
As mulheres que leem o livro se reconhecem porque entendem que as falhas fazem parte do caminho, não como tropeço, mas como matéria-prima da vida real. São as frestas por onde a luz entra.
Kátia Callaça: Despertamos para o fato de que as falhas não são nossas, mas da estrutura que nos molda e nos dita comportamentos, as histórias são a nossa maneira de dizer basta e um farol para outras mulheres. Chega de silêncio, agora somos nós as protagonistas das nossas próprias histórias.
PIMENTA ROSA: Como foi o processo criativo entre vocês: a combinação de texto, ilustração e o diálogo entre gerações?
Letícia Campos: Criar com a Kátia foi descobrir uma parceria rara. O texto e a ilustração não estavam separados; um atravessava o outro. Às vezes eu escrevia algo que ela transformava em imagem e vice-versa. De repente, aquela imagem me abria outra camada de sentido para reescrever um trecho.
E o fato de o diálogo se dar entre gerações tornou tudo mais potente: duas mulheres de épocas diferentes olhando para as mesmas dores e desejos de formas complementares. Sinto que o livro nasceu desse encontro sensível.
Kátia Callaça: Esse é um ponto fundamental dentro da nossa narrativa, é o que mulheres podem fazer juntas quando ultrapassam a barreira e quebram muros da rivalidade, estrelismo, competição e passam a se apoiar, dialogar e subverter. Esse movimento causa o abalo no status quo do sistema que desejamos, nosso processo criativo.
PIMENTA ROSA: Quais foram os desafios e aprendizados de realizar um projeto 100% independente e financiado coletivamente?
Letícia Campos: Os desafios começam antes mesmo da primeira página: fazer literatura independente no Brasil exige coragem e persistência. Ao mesmo tempo, foi libertador perceber que tínhamos autonomia total para construir o livro que queríamos — sem concessões, sem filtros, sem precisar caber em um molde.
O financiamento coletivo foi uma prova de que existe uma comunidade inteira desejando histórias novas. Aprendi que um projeto independente é feito a muitas mãos — e que essa coletividade também é parte da obra.
Kátia Callaça: Os desafios são imensos, porque há uma fenda grande na valorização da produção cultural e literária, mas há também facilitadores, como o financiamento coletivo, que propiciam uma ação viável, se nos munirmos de estratégia, planejamento, apoiadores (“acreditadores”) e uma boa dose de coragem.
PIMENTA ROSA: O livro fala de recomeços corajosos, e não de finais felizes. Qual mensagem vocês querem deixar com essa escolha?
Letícia Campos: Eu acredito profundamente nos recomeços. Eles são mais honestos do que qualquer promessa de “felizes para sempre”. A vida real não fecha em chave de ouro — ela se desdobra, se reinventa, se abre de novo.
Quero que as pessoas percebam que recomeçar não é sinal de fracasso: é sinal de vida. E que cada mulher tem o direito — e a força — de escrever seus próprios caminhos, quantas vezes forem necessárias.
Kátia Callaça: Que a caixa foi aberta e os desejos de mudanças estão no ar e que podemos sim, viver a história que queremos contar.
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