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E aí vovô, chegou na melhor idade! Será mesmo?

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 18 de jan.
  • 5 min de leitura



*Eduardo Papa

 

É fato conhecido que a humanidade está envelhecida. Desde o séc. XVIII, e em especial nas últimas décadas, o progresso científico tem sustentado um crescente aumento na expectativa de vida de nossa espécie. Esse aumento foi, por muito tempo, acompanhado pelo crescimento das taxas de natalidade, gerando as teorias de origem malthusiana de uma perigosa explosão demográfica, que levaria a exaurir os recursos disponíveis, provocando escassez para a humanidade. Ainda que países, como a China e os do subcontinente indiano tenham enfrentado de fato problemas de superpopulação, em alguns casos tendo tomado medidas drásticas de controle demográfico, com sérias consequências, a catástrofe prevista pelo economista Thomas Malthus no séc. XVIII não se concretizou.

 

Ao invés de um manancial inesgotável de jovens inundando o mercado de trabalho, a realidade é bem outra. Mesmo a China, com sua gigantesca população, deu um freio em seu crescimento. Apenas as regiões mais pobres do planeta ainda apresentam uma curva demográfica ascendente. Na Europa, por exemplo, se não fosse a força de trabalho dos imigrantes, haveria sérios problemas para preencher postos de trabalho em diversos setores da economia. Em alguns países o processo de envelhecimento é dramático: no Japão, se continuar na tendência atual, em 50 anos não nascerão novos japoneses; países de tradição belicosa, como a Federação Russa de Vladmir Putin, desenvolvem políticas natalistas, com prêmios financeiros para famílias numerosas; a Itália e Portugal doam casas a quem se dispor a morar em cidades que estão desaparecendo por falta de habitantes. Entretanto, a tendência é inexorável, cada vez mais cabeças brancas irão povoar o mundo inteiro.

 

Enquanto no século XX a melhoria geral nas condições de saneamento, campanhas de vacinação e aprimoramento dos serviços de saúde, gerou uma sobrevivência maior de jovens e crianças. O notável progresso da medicina no século XXI permitiu que a grande maioria de nós conseguisse passar fácil da maturidade, e com qualidade de vida inimaginável para os nossos avós. O envelhecimento da população é geral, mas absorvido de maneira diferente de acordo com a cultura de cada sociedade. Nas sociedades tradicionais, em que o conhecimento é transmitido de uma geração para outra por via oral, os anciãos são valorizados e ocupam posição de destaque. Já nas sociedades modernas, com desenvolvimento tecnológico de ponta, a situação pode se inverter, com milhões de idosos excluídos digitais e enfrentando dificuldades para financiar sua velhice, em especial no que diz respeito aos cuidados com a saúde.

 

As sociedades atuais tratam da terceira idade de maneira bastante distinta, muito embora normas internacionais para atenção aos idosos tenham sido estabelecidas pela ONU e organismos internacionais, vamos combinar que essa ordem política internacional já era. Nas sociedades orientais, de base confuncionista, os idosos são, há milênios, reconhecidos como uma questão das famílias. Na poderosa China não há sistema de previdência estatal, o sustento dos pais e avós cabe aos descendentes, existe sim um sistema de acolhimento para idosos que não têm responsáveis, mas se algum filho negligencia os cuidados aos pais, além da forte reprovação da comunidade, sofre penalidades impostas pelo Estado, que como sabemos não costumam ser nenhuma moleza. Enquanto grande parte do mundo trata o sustento da velhice como algo privado, no âmbito familiar ou mesmo tribal, as sociedades que encontraram modelo para estruturação na Europa pós iluminista, acabaram desenvolvendo sistemas de aposentadorias, com financiamento público ou privado para seus idosos, além de uma rede de proteção pública que varia de país para país.

 

Aqui no Brasil, em uma abordagem superficial, a sociedade parece ter uma preocupação enorme com seus idosos, garantindo-lhes uma série de prioridades e garantias de serviços públicos em condições vantajosas. Mas se formos olhar um pouco mais detidamente, vamos ver que a realidade não é todo esse idílio para os mais velhos. Em primeiro lugar porque o sistema de aposentadorias e benefícios acompanha os padrões de enorme desigualdade da sociedade. Enquanto para alguns segmentos privilegiados, como juízes, militares, políticos e a nata do funcionalismo, a aposentadoria é precoce e regiamente remunerada, na base da pirâmide, a esmagadora maioria dos aposentados empobrece ano a ano. Com um sistema de financiamento que a condena a crise crônica a previdência brasileira, pois prevê o financiamento dos inativos pela contribuição da população economicamente ativa, e jamais terá suas contas equilibradas, pois a base de contribuintes não sustenta o crescimento das necessidades de pagamento. E com as contas condenadas a não fechar, os aposentados dependem de disputar seu financiamento no orçamento público, com nada mais nada menos que os bancos!

 

Claro que nossos velhos andam apanhando feio, e de reforma em reforma a previdência é cada vez pior para os trabalhadores. A carência é tamanha que, nas classes populares, todos os benefícios destinados aos idosos acabam sendo consumidos em um sumidouro de necessidades prementes das famílias. Não raro é aquele magro aposento, que já seria pouco para garantir uma velhice digna, o que garante o sustento para vários dependentes. O idoso que não paga mais a condução acaba exercendo a função de despachante para a família mais pobre, não raro sendo requisitado para o uso em favor de terceiros de toda sorte de prioridades, e até mesmo de sua capacidade de endividamento. Assim como nas camadas populares, o idoso de classe média também sofre, em especial com os famigerados planos de saúde. Após pagarem décadas por serviços, muitas vezes pouco utilizados, de operadoras de planos de saúde, quando mais precisam da cobertura, descobrem que os preços cobrados vão se tornando proibitivos.

 

Além do que, sendo cada vez mais numerosos, os idosos cada vez mais são disputados como consumidores no mercado. A agressiva publicidade voltada para o segmento comprova a importância dos idosos para movimentar a economia, e uma variada gama de produtos foram desenvolvidos especificamente para atendê-los nos mais variados setores, bem como diversos negócios e até profissões, como cuidadores, geriatras, e outras surgiram, em um segmento econômico crescente. Infelizmente, em um movimento acompanhado de perto por uma súcia de golpistas e aproveitadores especializados em ludibriar os idosos, desde criminosos até grandes empresas, que treinam seus funcionários para essa finalidade.

 

Embora o etarismo não seja nenhuma novidade, na comédia grega, em que há milênios brilhou Ésquilo, o “velhote” era o principal objeto da pilhéria, que explorava as limitações físicas e mentais que chegam com a idade vetusta. Em nossos tempos, a velocidade com que as novas tecnologias modificam a vida, dificulta sobremaneira a adequação dos idosos ao mundo atual. A exclusão digital é uma realidade dolorosa para milhões de idosos que dependem da ajuda de parentes e amigos para realizar as mais corriqueiras atividades de suas vidas, o que destrói a autoestima, fragiliza as pessoas e induz a criação de dependências, muitas das vezes perniciosas. Por outro lado, a exposição, sem esclarecimento, dos idosos a máquina infernal de propaganda da extrema direita, pode transformar aquele inofensivo “tiozão do pavê” em um perigoso ativista radical.

 

Mas o certo mesmo é que apesar dos preconceitos, das limitações econômicas e das cascas de banana pelo caminho, a velharada brasileira está é botando pra quebrar! Se cuidando, amando, produzindo, se adaptando como pode aos novos tempos e dando um exemplo de energia, perseverança e capacidade de superação às novas gerações. Aproveitando o carnaval que se aproxima, vamos beber na fonte da sempre fresca e deliciosa da cultura popular brasileira, e seguir o exemplo das escolas de samba, em que o poder da bateria e a pujança da juventude dos componentes é temperada pela tradição da ala das baianas e orientada pela experiência da velha guarda, o que nos permite oferecer ao mundo o maior espetáculo da terra.

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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