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O SACRIFÍCIO DAS VIRGENS DE MINAB

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 1 hora
  • 6 min de leitura


 

*Eduardo Papa

 

Não foram poucas as sociedades que no passado desenvolveram rituais de sacrifício humano, desde a antropofagia ritual dos Tupis até os sacrifícios em massa nas pirâmides Maias. Há uma simbologia peculiar quando é feminina, de vestais em especial, a carne imolada. O rei Minos exigia no tributo que cobrava dos aquivos doze virgens por ano, para servir de pasto a sua besta – o Minotauro. Eis que a guerra de agressão dos EUA e Israel contra o Irã começou com o sacrifício de jovens meninas no altar do implacável e perverso Deus da atual Israel – o capital!

 

No dia 28 de fevereiro pela manhã, o Aiatolá Kameney já sabia que ia ser atacado, e permaneceu em seu posto para virar mártir, os exércitos envolvidos já sabiam que o ataque estava em andamento, Putin, Xi Jinping e os principais líderes mundiais já estavam informados do início das hostilidades, mas os pais e professores da pequena cidade de Minab não.  Começaram o dia sem ter a menor ideia de que a maior potência militar do planeta iria despejar a tecnologia mais sofisticada em armamentos sobre eles, trazendo uma morte horrenda para as meninas da cidade. Crianças, entre seis e doze anos, que não sobreviveram à campanha da civilização ocidental para libertar as mulheres iranianas da opressão do clero xiita. E os detalhes são sórdidos!

 

No início da operação militar, a marinha estadunidense atacou com mísseis o litoral iraniano, tendo como objetivo destruir instalações navais, um navio lançou um bloc 4 com 5 mísseis Tomahawk, de alto poder de destruição, contra Minab. Aí temos que entrar em uma discussão técnica. As leis de guerra exigem que para esse tipo de ação a definição dos alvos obedeça a critérios claramente estabelecidos. O primeiro é a distinção do alvo, qual seja determinar se é de fato um alvo militar. O segundo é a proporcionalidade, que avalia a importância militar do alvo em comparação com a extensão de possíveis danos colaterais, que atinjam a população civil. Após a matança indiscriminada na Guerra ao Terror de George Bush, foi promulgada, em 2023, nos EUA, a Lei de Resposta e Mitigação de Danos a Civis, que criava uma camada extra de verificação no processo de definição de alvos. A lei, que foi derrubada por Trump, se fosse aplicada no caso implicaria em uma verificação adicional por uma equipe de especialistas, que iriam achar estranho os desenhos coloridos com motivos infantis nos muros de um quartel da Guarda Revolucionária Islâmica, ou não? Para completar o cenário do crime, o Pentágono para baratear e simplificar o processo passou a usar inteligência artificial para a definição de alvos.

 

Voltando a Minab, a IA seguindo os padrões de tamanho e formato de edificações que poderiam ser instalações militares e cruzando com informações de um arquivo de 2005 quando a cidade tinha uma grande base naval, definiu quatro alvos na pequena Minab, foi enviado um míssil para cada um e um quinto míssil para sobrevoar a área durante o ataque, mandando informações e imagens em tempo real para o operador avaliar a necessidade de outra investida. Os dois primeiros alvos eram grandes depósitos, a imagem que os comandantes receberam foi a de prédios demolidos sem explosões secundárias, tiros desperdiçados em prédios vazios. O terceiro alvo era uma unidade de saúde da marinha, que começou a incendiar-se, mas não explodiu. O quarto alvo era a escola que também não registrou explosões secundárias, mas o operador observou nas imagens uma particularidade, uma grande movimentação de pessoas dentro do complexo em direção ao prédio principal, e em toda a cidade em direção ao alvo. Eram os professores tirando as meninas das salas de aula e as reunindo no prédio central, e os pais das crianças chamados por telefone indo buscá-las na escola. Os oficiais responsáveis, provavelmente no destróier USS Spruance, consideraram ser indício de que era uma instalação importante (e era mesmo ali estava o futuro da cidade) e ordenaram o ataque. O míssil subiu, tomou impulso e caiu direto no alvo, explodindo e depois transformando seu combustível líquido restante em uma bomba termobárica, despedaçando e incinerando todos no recinto, lançando sobre a USNAVY a responsabilidade de um crime de guerra bárbaro contra meninas indefesas. Crime que jamais será apurado, pois hoje nos EUA nem o assassinato de uma cidadã americana nas ruas de Minneapolis por policiais é punido.

 

Não bastasse o horror do fato em si, a repercussão dada pelas mídias ocidentais e as declarações das autoridades da coligação foi de dar engulhos. Quase imediatamente após o fato surgiu um general israelense, um mentiroso sem escrúpulos é claro, afirmando que era fogo amigo. Eu mesmo recebi um filminho de uma tetéia bem woke chamada ladylaw, apresentando “evidências insofismáveis” de que esse era o caso. Um escárnio moral comparável aqueles vídeos que humilhavam os palestinos pela miséria a que eles próprios lhes impuseram após a pilhagem de seu país, enquanto esses eram trucidados pelas forças sionistas em Gaza, uma nojeira! Trump meteu uma egípcia, disse que não sabia de nada, que tudo ia ser apurado, que as forças dos EUA não matam crianças. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assegurou que as forças americanas "não atacariam deliberadamente uma escola" e disse que Washington iria investigar o caso. Mais repugnante ainda foi o Secretário de Defesa (ao qual a atual administração atribuiu o apelido de Secretário da Guerra) Pete Hegseth, que na cara dura mandou que: "Os Estados Unidos, independentemente do que digam as chamadas instituições internacionais, estão desencadeando a campanha de poder aéreo mais letal e precisa da história" e demonstrando um prazer quase orgástico em contemplar a destruição que desencadeou, ainda completou: "Nada de estúpidas regras de engajamento. Nada de politicamente correto". Sinto-me aterrorizado em constatar que é essa gente, sociopatas dominados pela pulsão de morte, que controla um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta.

 

Aqui no Brasil, a mídia pró EUA e Israel, liderada pela Globo, falsifica a realidade de maneira tão descarada que parece que os EUA estão vencendo bárbaros incivilizados em uma cruzada pela liberdade. Infelizmente as deficiências na instrução das classes subalternas, combinada a mediocridade intelectual e o “complexo de vira-latas” da classe média que a elas servem de parâmetro, enseja a proliferação de adoradores do Tio Sam entre nós. Uma espécie de simplórios a quem conseguiram convencer que esses piratas carniceiros, que espalham o horror da guerra pelo mundo há séculos, são movidos pelo nobre princípio de promover a liberdade e a democracia, valores que na verdade para eles são apenas palavras vazias sem qualquer conteúdo, algo como o ouro de tolo, oferecido aos néscios para roubar-lhes a alma, acostumá-los com a mentira e banalizar o mal em seus corações.

 

As inocentes meninas de Minab foram sacrificadas de maneira bárbara no altar do capitalismo neoliberal, em um espetáculo grotesco exposto ao mundo, para confirmar e justificar a violência contra os indesejáveis do mundo: para que a classe média carioca aplauda agentes da repressão após chacinarem indiscriminadamente 130 favelados; para que militares brasileiros se disponham a matar e torturar opositores em defesa da hegemonia do império estadunidense; para que pessoas que se apresentam como bons cristãos, tementes ao seu Deus, apóiem a perseguição e a matança dos que não comungam com sua fé; para que bilionários, e os políticos que carregam no bolso, possam defender sem pudor a dilapidação do valor do trabalho a espoliação econômica  e o empobrecimento do povo. Essas meninas sacrificadas são o símbolo do que o império do capital, em seu momento terminal de degenerescência, tem a oferecer a humanidade: a morte do futuro, a violação da inocência e o cinismo dos brutos.

 

Nesse momento de profunda dor para a população de Minab enlutada, cabe nossa solidariedade, bem como ao altivo povo persa, que em sua rica cultura traz cinco mil anos de bagagem, em que se constituiu em um referencial civilizacional para a humanidade. Foi o imperador Ciro dos Persas que libertou os judeus do cativeiro na Babilônia, os sionistas modernos, que hoje devolvem com o assassinato de crianças o benefício que receberam há milênios, chegaram a plantar uma árvore em sua homenagem no “Jardim dos Justos” em Israel, e hoje tentam escravizar seus descendentes. A princípio pode parecer que estamos muito longe de uma guerra que ocorre há milhares de quilômetros em outro continente, mas não. São os mesmos motivos que determinam o genocídio em Gaza e o dos Yanomami na Amazônia. O processo de super exploração e discriminação de migrantes pobres paquistaneses e nepalenses nas monarquias sunitas ou dos trabalhadores palestinos em Israel, não difere muito da condição dos “paraíbas” aqui em nosso sul maravilha, que volta e meia são encontrados em condição análoga à escravidão. A origem da maldade é a mesma, a ganância desmedida do capitalismo neoliberal, que transformou o Leão de Judá em uma hiena, e a Águia Americana em urubu campeiro, animais escolhidos no ambiente natural de seus países como símbolo de força e altivez de suas nações, transmutados em seres rapineiros sem honra ou qualquer valor, que espelham bem uma gente degenerada que usa da violência para garantir a exploração de seus vizinhos.



*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 


  • As informações técnicas foram obtidas em vídeos dos analistas militares Larry Jonhson e Scott Ritter.   

 

 


 
 
 

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