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José Araújo dá vida a Félix em “Memórias com Vista para o Mar”

  • Foto do escritor: Pimenta Rosa
    Pimenta Rosa
  • 17 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Ator mergulha em ancestralidade e emoções profundas em filme de Marton Olympio, que estreia no Festival do Rio


Fotos divulgação
Fotos divulgação

Receber o convite para interpretar Félix, um pintor negro octogenário que busca liberdade e reencontro com suas memórias, foi mais que um papel para José Araújo: foi um presente. “Era o ano em que eu também completava 80 anos. Mergulhar nesse roteiro foi como viajar na minha própria ancestralidade”, conta o ator.


Escrita e dirigida por Marton Olympio — roteirista de Cidade dos Homens e Anderson Spider Silva —, a trama de Memórias com Vista para o Mar mistura lembranças pessoais do autor com a trajetória de um personagem que, sentado diante do oceano, revisita sua vida em diálogos silenciosos com as ondas.


Para Marton, a escolha de Araújo para viver Félix foi certeira. “Não imagino outro ator para o papel. José vestiu o personagem com tanto carinho e entrega que parecia já tê-lo dentro de si. Esse é um filme sobre reconexão entre pai e filho, um tema que atravessa meus trabalhos e que é muito caro para a experiência negra no Brasil. Félix é inspirado na minha própria família, mas José trouxe uma dimensão universal a essa história.”


Logo no primeiro contato com o texto, Araújo percebeu ecos de sua própria história. “Quando li o monólogo que Marton me enviou, imediatamente pensei no meu bisavô, na minha avó materna, em todos que conheci pelas histórias da minha mãe, a griô da minha vida. Senti uma conexão muito forte entre meus ancestrais e os da família de Marton. O Félix é, de certa forma, um espelho da minha própria memória”, relata.


Essa fusão entre vivências reais e ficção fez com que a construção do personagem fosse carregada de emoção. O ator confessa que precisou recorrer à técnica para separar suas lágrimas das de Félix.


“Sou um homem muito emotivo, mas sabia que precisava controlar minhas próprias dores para não me confundir com as do personagem. O maior desafio foi justamente esse: equilibrar emoção e técnica. O cinema exige precisão, e eu não podia me perder.”

Se a pintura é a linguagem de Félix, para Araújo a arte se manifesta pela atuação e pela música. Ainda assim, ele reconhece que ambos compartilham o mesmo princípio: traduzir a vida em criação. “A arte salva. Ela nos dá felicidade, mas também faz pensar, refletir. Para viver o Félix, busquei minhas próprias lembranças, minhas raízes afro-brasileiras, minha ligação com a religião e com as histórias de família. Trabalhei o personagem a partir desse lugar íntimo.”




No filme, Félix dialoga com o mar, que surge como confidente e guardião de memórias. Para o ator, esse cenário carrega simbolismos profundos. “Foi ali que o personagem teve suas primeiras experiências com a água, inspiração para suas telas. O banco à beira-mar é onde ele se encontra consigo mesmo e com seus ancestrais. O mar é metáfora da travessia, da origem de seu povo, e também do retorno, do reencontro.”


Protagonizar um longa-metragem aos 80 anos, sendo um homem negro, é um marco. “Um protagonista negro idoso já é, por si só, uma conquista. Passamos a vida buscando oportunidades que muitas vezes não chegam. Estar nesse lugar é uma vitória pessoal, mas também coletiva. Representa tantos homens e mulheres negras que envelhecem à margem, muitas vezes na solidão, após terem dado tudo de si à família ou à sociedade.”


O filme também lança luz sobre a invisibilidade social dessa parcela da população. “O idoso negro sofre preconceito em várias áreas: saúde, cultura, trabalho. O Félix simboliza essa dor, mas também a resistência. Ele foge do asilo para reencontrar sua dignidade, seu espaço. Esse gesto é profundamente político.”


Durante as filmagens, Araújo viveu momentos intensos. “Antes de uma das cenas mais emocionantes, tive uma crise de choro. Precisei do apoio da atriz  Dani Ornellas, minha amiga, para me recompor. Foi um processo doloroso, mas também libertador. No fim, senti que consegui separar minha emoção da de Félix sem perder a verdade da cena.”


Agora, com a estreia no Festival do Rio, um dos mais importantes do país, o ator define o sentimento em uma palavra: vitória. “Cada oportunidade que recebemos depois de tanta batalha é uma conquista. Estar nesse festival é uma alegria imensa. Quero que o público veja o filme, porque ele não é só sobre Félix: é sobre tantas pessoas que vão se reconhecer nessa história.”


Com Memórias com Vista para o Mar, José Araújo vai além da interpretação um personagem: ele reafirma sua trajetória de mais de cinco décadas de carreira, marcada pela resistência e pela entrega à arte. Aos 80 anos, o ator encontra no cinema um lugar de reconciliação com o passado e de afirmação do presente. “O filme é um mergulho em nossas memórias coletivas. E eu mergulhei de corpo e alma”, finaliza.



FICHA TÉCNICA

Direção: MARTON OLYMPIO

Roteiro: MARTON OLYMPIO

Empresa Produtora: DÉDALO PRODUÇÕES ARTÍSTICAS

Produção: RAFAEL LEAL

Fotografia: YAGO NAUAN

Montagem: KAREN BLACK

Direção de Arte: ALBERTA PERNAMBUCO

Figurino: ANDREIA JOVITO

Som: MARCIO PADILHA

Música: TUCA ALVESLUI COIMBRA / ANGÉLICA DE PAULA / MARCIO PADILHA

Elenco: ANDRÉ RAMIRO / JOSÉ ARAÚJO / DANI ORNELLAS / ANDREA RODRIGUES / HAMILTON DIAS / DEMERSON D’ALVARO / LUCAS SAMPAIO / ANGELICA DE PAULA / MARTON OLYMPIO

 
 
 

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