Kant e a arte de pensar por si mesmo: autonomia, heteronomia, menoridade e esclarecimento


Por Prof. Dr. Toni Reis*
Voltei a estudar! Estou cursando uma graduação em Filosofia e, nessa nova jornada de conhecimento, tive um encontro intelectual que me encantou profundamente: o pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant (1724–1804).
Ao estudar suas ideias, deparei-me com quatro conceitos que considero fundamentais para a vida em sociedade: autonomia, heteronomia, menoridade e esclarecimento.
Fiquei apaixonado por essas quatro palavras e, principalmente, pelo que elas representam para nossas relações humanas, profissionais, políticas e sociais.
Autonomia é a capacidade de pensar por si mesmo, exercer a razão e orientar nossas decisões por princípios que podemos reconhecer racionalmente como válidos. Não significa simplesmente fazer o que queremos, mas assumir a responsabilidade por nossas escolhas.
Já a heteronomia acontece quando nossa vontade é determinada por fatores externos à razão moral, em vez de ser orientada por princípios racionalmente assumidos. É quando deixamos que outras pessoas, interesses, pressões ou autoridades determinem nossos critérios de decisão.
Confesso que o conceito de heteronomia era novo para mim. E fiquei fascinado! Afinal, quantas vezes abrimos mão de pensar por nós mesmos e simplesmente reproduzimos aquilo que alguém nos disse?
Kant também apresenta outro conceito extraordinário: a menoridade. Em seu famoso texto Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?, publicado em 1784, ele explica que a menoridade é a incapacidade de utilizar o próprio entendimento sem a orientação de outra pessoa.
Essa menoridade não significa falta de inteligência ou de conhecimento. Muitas vezes, está relacionada à falta de coragem e determinação para pensar de maneira independente.
E aqui chegamos ao quarto conceito: esclarecimento.
Para Kant, o esclarecimento representa a saída dessa condição de dependência intelectual. É a coragem de utilizar a própria razão, questionar, investigar, argumentar e construir entendimentos fundamentados.
Seu famoso convite continua atualíssimo: “Sapere aude!” Ousa saber! Tem coragem de fazer uso do teu próprio entendimento!
E como essas ideias dialogam com os desafios do nosso tempo!
Precisamos aprender a conversar sobre futebol, religião, política, sexualidade, direitos humanos e tantos outros assuntos, inclusive aqueles que provocam divergências profundas.
Mas precisamos fazer isso com argumentos, conhecimento, respeito e disposição para ouvir.
Discordar não é atacar. Questionar não é desrespeitar. Pensar diferente não transforma ninguém em inimigo.
O esclarecimento não significa saber tudo, ter sempre razão ou vencer todas as discussões. Significa ter coragem de pensar, reconhecer nossas limitações, rever posições e submeter nossas próprias convicções ao exame crítico da razão.
Acredito que toda pessoa que trabalha em grupo, vive em coletividade, exerce funções públicas ou atende clientes, pacientes, estudantes e usuários de serviços deveria conhecer e refletir sobre esses quatro conceitos kantianos.
Precisamos de mais autonomia intelectual e menos submissão irrefletida. Precisamos superar a menoridade e cultivar o esclarecimento.
E acrescento algo que considero indispensável à convivência humana: podemos debater praticamente tudo com firmeza nos argumentos e, ao mesmo tempo, com tranquilidade, suavidade, empatia e fraternidade.
Não precisamos concordar em tudo para respeitar uns aos outros.
Uma sociedade verdadeiramente esclarecida não é aquela em que todas as pessoas pensam igual, mas aquela em que as pessoas têm liberdade e coragem para pensar, argumentar, discordar e aprender umas com as outras.
Voltar à universidade está me proporcionando descobertas maravilhosas. E Kant já me ensinou uma lição que quero levar para a vida: pensar por conta própria é uma responsabilidade; respeitar a capacidade de pensar dos outros é uma condição fundamental da convivência democrática.
Que tenhamos coragem de pensar, humildade para aprender e generosidade para dialogar.
Afinal, o esclarecimento começa quando deixamos de simplesmente repetir ideias e passamos a examiná-las com nossa própria razão.
*Prof. Dr. Toni Reis





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