"Las Choronas" chega ao CCBB Rio com teatro do absurdo, surrealismo e Libras como linguagem central
- Pimenta Rosa
- 13 de jan.
- 4 min de leitura
Espetáculo mineiro de dramaturgia tem como proposta uma experiência sensorial, política e acessível, reafirmando o teatro como espaço de risco, experimentação e encontro

O Centro Cultural do Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB Rio) recebe o espetáculo “Las Choronas”, criação que vem se destacando na cena teatral contemporânea por sua linguagem ousada, crítica e profundamente sensorial. Após temporada de sucesso em Belo Horizonte ao longo de 2025, a montagem estreia em palcos cariocas, permanecendo em cartaz até 8 de fevereiro, com sessões de quinta a domingo.
O espetáculo reúne artistas de três importantes coletivos teatrais mineiros — Pigmalião Escultura que Mexe, Cia 5 Cabeças e Mulher que Bufa — que se unem pela primeira vez em um projeto inédito. A temporada no Rio de Janeiro acontece de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 18h, com apresentação do Ministério da Cultura e investimento do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).
Com dramaturgia e direção de Byron O’Neill, nome de destaque da cena teatral de Minas Gerais, Las Choronas aposta em uma estrutura não linear, construída de forma colaborativa. O processo criativo partiu de improvisações dirigidas, partituras gestuais, fragmentos poéticos, fábulas e notícias de jornal, resultando em uma obra que transita entre o teatro do absurdo e o surrealismo. As referências dialogam diretamente com o cinema de David Lynch, especialmente Mulholland Drive, e com o teatro de Samuel Beckett, como em Esperando Godot.
No palco, os intérpretes manipulam bonecos e, simultaneamente, são manipulados por eles, criando um jogo visual que tensiona as fronteiras entre humano e objeto, som e gesto, escuta e visão. A encenação provoca o público a experimentar o teatro para além da narrativa tradicional, convocando sensações, estranhamentos e reflexões.
Segundo O’Neill, o espetáculo se distancia deliberadamente de uma dramaturgia clássica.
“Não é uma peça linear, com princípio, meio e fim. É uma obra que traz provocações necessárias para a nossa contemporaneidade, tratando de temas como amor, identidade, abandono, marginalidade e também fazendo uma crítica política diante do cenário nacional e mundial, além da busca por sentido em tudo isso”, afirma o diretor e dramaturgo.
Um dos grandes diferenciais de Las Choronas é a presença do intérprete de Libras e Libras musical, bailarino Uziel Ferreira, integrado organicamente à cena. Mais do que um recurso de acessibilidade, a Libras assume papel central como linguagem dramatúrgica, dialogando com a dança, a música e o teatro de bonecos. O resultado é uma experiência cênica que amplia as possibilidades de comunicação e fruição artística, incluindo pessoas não ouvintes e propondo novas formas de percepção para todo o público.
A montagem transforma a cena vencedora e mais votada do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto 2022 em um espetáculo de aproximadamente 60 minutos, no qual a Libras se converte em matéria coreográfica e poética. “Pensamos a Libras como expressão do que acontece em cena. O intérprete está completamente integrado, e os demais artistas dançam em diálogo com sua expressão corporal e linguística”, explica O’Neill.
A sinopse reflete o caráter fragmentado e provocador da obra: “Nothing to be done. Nada a fazer. Esto es una grabación. Não há banda! E assim mesmo escutamos o nada.” Em uma mistura de idiomas, sons, silêncios e imagens, Las Choronas convida o público a ouvir o invisível, perceber o indizível e atravessar camadas de sentido onde lágrimas, bonecos e corpos coexistem. “Don’t worry, this too shall pass. Mañana vai ser outro dia.”
O nome Las Choronas Companheiras Teatrais nasce tanto do encontro inédito entre artistas experientes quanto de referências estéticas e narrativas. Uma delas está em Mulholland Drive, na emblemática cena em que Rebekah Del Rio interpreta a canção “Llorando”. Outra surge no próprio espetáculo, quando as bonecas Liz e Carol são manipuladas pela personagem Aurora — “as choronas”, como define o diretor, em tom bem-humorado.
A pluralidade linguística também marca a dramaturgia. O espetáculo transita entre português, espanhol, inglês, italiano e Libras, refletindo a trajetória internacional dos artistas e a presença de integrantes estrangeiros nas companhias, como Aurora, atriz italiana que fala múltiplos idiomas. “Essa mistura foi natural. Em alguns momentos, o público ouvinte não entende tudo o que é dito, e isso também faz parte da proposta”, explica O’Neill. Há cenas inteiras em Libras, outras em idiomas estrangeiros, nem sempre traduzidos para o português, reforçando a experiência sensorial e a quebra de expectativas.
Ficha técnica
"Las Choronas"
Apresentação: Ministério da Cultura e Banco do Brasil
Direção e dramaturgia: Byron O'Neill
Assistência de direção e direção de manipulação: Igor Godinho
Elenco: Aurora Majnoni, Carol Oliveira, Eduardo Felix, Joyce Malta, Liz Schrickte, Uziel
Ferreira e Tom Forato
Intérprete de libras: Uziel Ferreira
Assistente em tradução de libras: Victor Daniel
Trilha sonora: Las Choronas
Edição musical: Rafael Nelvam
Trilha cuíca: Daniel Guedes
Captação, edição, mixagem trilha cuíca: Fillipe Glauss - Estúdio Nascente
Técnico de som: Vinicius Alves
Criação de luz: Marina Arthuzzi e Wellington Santos
Cenografia e figurinos: Eduardo Felix
Cabelo e maquiagem: Camila Polatscheck e Iara Drumond
Bonecos: Aurora Majnoni, Eduardo Felix, Mauro Carvalho e Tom Forato
Cenotécnico: Nilson Santos
Costureira: Elaine do Carmo e Endira Drumond
Coreografia: Uziel Ferreira, Guilherme Morais e Liz Schrickte
Operação de luz: Marina Arthuzzi e Wellington Santos
Assessoria de imprensa: Alessandra Costa
Social Media: Flávia Moreira
Arte gráfica: Liz Schrickte
Fotos: Guto Muniz, Tom Forato e Byron O’Neill
Coordenação de produção: Luisa Rosa
Produção: Carol Oliveira
Assistente de produção: Vina Amorim e San Marino
Gestão de Objeto: Cris Moreira
Gestão financeira: Graziane Monteiro
Contabilidade: Ambar Contabilidade
Realização: Governo do Brasil e Centro Cultural Banco do Brasil
AGRADECIMENTOS: Galpão Cine Horto, Márcio Miranda, Matheus Carvalho, Paula Ribas, Marlene Imaculada Cota, O’Neill Byron, Clarissa Amorim Hortélio, Gustavo Djalva, Márcio Gouvea, Carô Rennó, João Corgozinho, Iara, Lira e Lucca.
SERVIÇO
“Las Choronas”
Teatro II
Temporada: 08 de janeiro a 08 de fevereiro de 2026
Quinta-feira a sábado às 19h e domingos às 18h
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração:60 minutos
Ingressos à venda na bilheteria física e site do CCBB
Inteira: R$ 30 | Meia-entrada: R$ 15
Estudantes, maiores de 65 anos, demais beneficiários de leis de acesso e usuários de cartões Banco do Brasil pagam meia-entrada.




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