LGB sem T: a ruptura que desafia a unidade da diversidade
- Ronaldo Piber

- 2 de out. de 2025
- 3 min de leitura

Ronaldo Piber*
Nas últimas semanas, repercutiu o lançamento da LGB Internacional, uma organização que busca representar exclusivamente lésbicas, gays e bissexuais, deixando de fora as pautas relacionadas à identidade de gênero. O movimento segue os passos da LGB Alliance, criada no Reino Unido em 2019, e já se articula em diversos países, inclusive no Brasil. Seus representantes afirmam que a luta por direitos baseada na orientação sexual estaria sendo diluída ou até prejudicada pelas demandas trans.
À primeira vista, pode parecer apenas uma reorganização interna, algo natural em qualquer movimento social plural. Mas, ao observarmos de perto, a questão é mais complexa e traz implicações jurídicas, políticas e sociais importantes.
O direito de se organizar x o risco da fragmentação
A Constituição Federal assegura o direito à livre associação. Qualquer grupo pode se organizar para defender suas pautas, e isso é legítimo em uma democracia. Mas o problema surge quando lembramos que os maiores avanços conquistados pela comunidade LGBTQIA+ vieram justamente da união. Foi graças a essa articulação coletiva que o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união homoafetiva, que se garantiu a possibilidade de adoção por casais do mesmo sexo e que se avançou na criminalização da homofobia e da transfobia.
Ao se fragmentar, a comunidade corre o risco de perder força política e representatividade. Divididos, os grupos têm mais dificuldade para pressionar o Legislativo, sensibilizar o Judiciário e mobilizar a sociedade. Em outras palavras, quando cada letra puxa para um lado, os direitos de todos podem ficar mais vulneráveis.
O impacto simbólico da cisão
Mais do que um debate jurídico, a criação de um movimento “sem T” tem impacto simbólico profundo. A sigla LGBTQIA+ nunca foi apenas uma sopa de letras: ela representou um pacto de solidariedade entre diferentes identidades, todas alvo de discriminação em maior ou menor grau. Ao excluir o “T”, a mensagem transmitida é que determinadas existências são menos legítimas, menos dignas de reconhecimento e de proteção.
Esse tipo de gesto pode reforçar preconceitos já existentes e até oferecer munição a setores conservadores que sempre buscaram enfraquecer políticas de inclusão. A divisão interna, nesse sentido, pode ser usada como argumento para retrocessos: se nem dentro da comunidade há consenso, por que avançar em direitos?
Tensões reais e o desafio do diálogo
É preciso reconhecer, contudo, que a ruptura não surgiu do nada. Existem tensões reais entre pautas de orientação sexual e identidade de gênero. Temas como participação de atletas trans em esportes femininos, uso de pronomes neutros e políticas de saúde envolvendo crianças e adolescentes trans geram debates acalorados. Ignorar essas questões não ajuda. O desafio é enfrentá-las com diálogo, respeito e sensibilidade.
Aceitar que há divergências internas não significa validar rupturas. Significa amadurecer o debate, reconhecer a pluralidade e construir pontes. O movimento LGBTQIA+ sempre foi diverso; a questão é se essa diversidade será tratada como riqueza ou como motivo para exclusão.
Direitos são interdependentes
Enquanto advogado, lembro que os direitos humanos não funcionam de forma isolada. São interdependentes. Fragilizar os direitos das pessoas trans, por exemplo, não fortalece gays, lésbicas ou bissexuais; ao contrário, enfraquece toda a rede de proteção construída com tanto esforço ao longo das últimas décadas. Quando se rompe um elo, todos ficam mais vulneráveis.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a configuração de uma sigla, mas a própria capacidade da comunidade de se manter forte diante de desafios externos. A história ensina: as maiores conquistas vieram da união. E as maiores perdas, quase sempre, da divisão.
E agora?
A criação da LGB Internacional abre um debate que não pode ser ignorado. É legítimo que existam diferentes pontos de vista, mas é preciso refletir sobre o que realmente fortalece — e o que fragiliza — a luta por igualdade e dignidade. A pluralidade de vozes é fundamental, mas não pode se transformar em justificativa para negar direitos.
O futuro da comunidade depende menos de quem escolhe sair da sigla e mais de quem continua disposto a construir pontes. Afinal, a força sempre esteve na unidade.
E você, o que acha desse assunto?
*Ronaldo Piber é advogado e colunista do Pimenta Rosa




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