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Maravilha! Acabou a guerra na Palestina! Será mesmo?

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 19 de out. de 2025
  • 6 min de leitura


Eduardo Papa*


Donald Trump, que já comprovou ter um ego imenso, resolveu que ia ganhar o prêmio Nobel da Paz. Não seria impossível, essa turma que organiza o Nobel é que só aquele Tribunal de Haia, só trabalha a favor do chamado “ocidente”, em especial dos EUA. Não deu para levar porque o mundo político dos EUA está muito dividido, e os democratas fizeram forte campanha contra. Para não desagradar ao patronato, os noruegueses escolheram a Guaidó de saias, que serve a ambos, e bater na Venezuela é igual a chutar cachorro morto, ninguém reclama. Porém, no sprint final de sua campanha pelo cobiçado prêmio, Trump enfiou pela goela de Netanyahu um cessar fogo em Gaza, com troca de prisioneiros com o Hammas e tudo.

 

Certamente, não foi apenas a imensa vaidade de Trump que frustrou a fúria belicista de seu grande parceiro, que tentou de tudo para arrastar os EUA para sua guerra. Quem sabe ele não tenha outros projetos para seu exército, ultimamente, a Guarda Nacional tem sido usada para reprimir a população civil internamente. Além do que, o paiol de munição dos EUA está com estoques críticos, e sua indústria de armamentos começa a revelar fragilidades, com baixa capacidade de produção, e armamentos que não comprovaram em combate a eficácia propalada. Acumulando um déficit financeiro colossal e com uma situação interna delicada, uma aventura militar seria temerária. O país tem encontrado dificuldades para recrutar soldados, e após humilhar seus generais publicamente, não dá para pedir a eles para entrar em uma guerra de verdade, no máximo ficar afundando uns barquinhos no Mar do Caribe e ameaçando a Venezuela.

 

Não que os EUA tenham soltado a mão de Israel, nenhum governo americano faria isso, o lobby sionista é tão poderoso entre os republicanos quanto junto aos democratas, mas o fato é que os EUA não estão em condições de bancar Israel em mais uma guerra contra o Irã, que é o projeto dos radicais sionistas. As armas silenciaram, as tropas israelenses deixaram Gaza, prisioneiros estão sendo trocados, mas não há condições para uma paz duradoura e, penso eu, a principal proposta de quem propõe uma paz justa, com a criação de dois estados, um judaico e um palestino, tornou-se completamente inviável, sendo a continuidade do conflito uma questão de tempo.

 

A interrupção das hostilidades será a ruína de Netanyahu, que tem sérias acusações de corrupção para responder na justiça, processos que foram interrompidos pela conjuntura de guerra. Mas mesmo sem seu líder, a extrema direita sionista continuará a dar as cartas, pesquisas comprovam que contam com o apoio de 80% da população. Uma gente que acredita piamente que seu Deus os escolheu, entre a humanidade, para reinar sobre aquele lugar, e que qualquer um que ouse questionar seu direito sobre a terra pode ser justamente eliminado. Valia na Era do Bronze para os emalequitas, vale para os palestinos nos dias de hoje, e logo que puderem vão retomar a matança. Para os palestinos, não deve ter ficado nenhuma dúvida de que a convivência pacífica é impossível, e que devem estar preparados para resistir sempre. O cenário criado é tenebroso, a perpetuação de uma guerra de extermino mútuo.

 

A questão não é discutir se a guerra vai continuar, mas como ela será em sua próxima fase, para tanto vamos analisar os resultados do último estágio da refrega. Em nossos tempos, não é mais coisa simples definir quem ganhou uma guerra. Em 1918, em um vagão de trem, representantes alemães e dos aliados assinaram um tratado, e o mundo inteiro ficou ciente de quem ganhou e quem perdeu a I Guerra Mundial. Em nosso mundo pós-moderno, não é bem assim. Os EUA, por exemplo, amargaram derrotas acachapantes no Vietnã e Afeganistão, mas saíram cantando vitória, deixando seus próceres para trás, para amargar a derrota. Apesar dos esforços da mídia ocidental, que apresenta o cessar fogo como uma magnânima e humanitária concessão, conduzida pela diplomacia estadunidense, a realidade é outra. Israel amargou a maior derrota de sua história moderna.

 

Os objetivos estratégicos definidos pela liderança israelense, a destruição do Hammas e a libertação dos reféns, não foram alcançados. Os reféns só foram libertados em uma troca de prisioneiros com o próprio Hammas, que longe de ser destruído cresceu, preservando sua estrutura militar e logística na rede de túneis que construiu, e tendo sua capacidade de recrutamento aumentada de maneira exponencial, ao se transformar na principal força de resistência ao genocídio palestino. O Hammas emergiu dos subterrâneos como o grande vitorioso, e, como a única força de resistência em Gaza a contar com um sólido apoio de um poderoso aliado externo (o Irã), não deve ter dificuldades em reafirmar sua hegemonia sobre os diversos clãs tribais e demais organizações da resistência. Além disso, com sua resistência no campo de batalha, implodiu o Compromisso de Abraão, acordo que estava para ser firmado com os principais países árabes pelo reconhecimento do Estado de Israel, que sepultaria as chances da criação de um Estado palestino. O próprio rei esquartejador da Arábia Saudita, em um rasgo de sinceridade, afirmou não ter nenhum apreço pelos palestinos, mas o povo de seu país não aceitaria a aproximação com o sionismo.

 

Os dois últimos anos de matança destruíram o soft power israelense. Até nos EUA, seu maior aliado e fiador, o genocídio dos palestinos causou indignação, especialmente entre os mais jovens. Manifestações populares gigantescas pelo mundo, na Europa em especial, expressaram o repúdio universal aos métodos do Estado Israelense, que amarga um isolamento diplomático crescente. A economia do país também está seriamente abalada: a importante indústria do turismo está paralisada, por motivos óbvios; a agricultura e a construção civil também caíram drasticamente, sem os trabalhadores palestinos para o serviço braçal; centenas de milhares de judeus, aproveitando da facilidade de muitos terem dupla nacionalidade, abandonaram o país; a indústria ficou abalada pela queda do prestígio de suas armas (item importante de suas exportações), e pelo grande número de empresas que faliu ou diminuiu as atividades devido ao recrutamento para o serviço militar; cadeias produtivas foram desorganizadas, vínculos comerciais foram abalados, e a sensação de incerteza quanto ao futuro não favorece os investimentos; os mísseis iranianos deixaram pra trás prejuízos colossais nas cidades israelenses, com muita coisa a ser reconstruída.

 

Porém, o que abalou de fato os alicerces do poder israelense, foi o fracasso retumbante de seu exército. O povo de Israel acostumou-se a viver como que em uma ilha, cercada de povos hostis. Orgulhosamente jactavam-se da infalibilidade de sua defesa aérea, da invencibilidade de suas tropas e do domínio do espaço aéreo regional por sua aviação.  Em dois anos combatendo em Gaza, seu exército foi desmoralizado: amargou derrotas pesadas contra um adversário infinitamente mais fraco; suas melhores armas, como o tanque Merkava, queimaram as pencas, destruídas por armas rudimentares; a letalidade entre suas tropas foi elevada, e muitos veteranos voltaram amputados ou com graves sequelas; sem contar a potencial responsabilização legal por crimes de guerra, que paira sobre os combatentes envolvidos nos massacres de civis. Em duas semanas de confronto com o Irã, a supremacia aérea teve seu valor questionado, pois mesmo que mantida nos 12 dias de guerra, não impediu que suas cidades sofressem graves danos pelos mísseis de drones iranianos, que demonstraram a debilidade das defesas tidas como infalíveis.

 

A guerra vai continuar, mas a correlação de forças mudou. Esse round os palestinos ganharam por pontos, mas a luta está longe de ser definida. E a batalha decisiva pode ser travada bem longe do Monte Megido, para onde está prevista a batalha do Armagedon, embora isso não afaste seu potencial de nos conduzir ao juízo final. O enfraquecimento do Estado israelense, certamente está associado à decadência do imperialismo dos EUA. Israel, com o apoio financeiro e militar dos EUA, submeteu pela guerra seus vizinhos árabes sunitas (Egito, Líbano, Síria, Jordânia e Iraque), mas seu projeto de hegemonia local esbarrou na Revolução Islâmica do Irã. Após derrubar o regime do Xá Reza Pahlevi, fantoche de Washington e das grandes petroleiras, vencer uma duríssima guerra contra Saddam Houssein, e enfrentar um bloqueio comercial sufocante imposto pelos EUA e seus aliados, o Irã ressurgiu como uma potência de primeira grandeza na geopolítica regional. Buscando um realinhamento na geopolítica mundial, rompendo seu isolamento com o estabelecimento de parcerias com outras potências emergentes, como a China e a Rússia, o Irã reconstruiu sua economia. E, adotando a estratégia eficiente de apostar na missilística, surgiu como uma importante potência militar regional, possivelmente com a capacidade de erradicar do mapa as cidades israelenses em um conflito prolongado.

 

No novo mundo multipolar, com a Rússia e China desfiando abertamente a hegemonia dos EUA, o poder do chamado ocidente começou a ruir em todo o sul global: países africanos estão se desvencilhando de seus últimos vestígios do colonialismo, vide a expulsão da França do Sahel; países asiáticos, antes miseráveis, estão encontrando os caminhos para a prosperidade, aglutinados em organismos de cooperação regional, com grandes resultados; países do oriente médio, vislumbram a possibilidade de afastarem-se do domínio das petroleiras ocidentais, e a fila de interessados em entrar no BRICS só faz crescer. Nesse novo mundo, portas se fecham para Israel, ao passo que a causa palestina ganha simpatia.

 

Em se mantendo as tendências atuais, caso a liderança israelense cometa a imprudência de forçar um novo confronto, muito provavelmente encontrará sérias dificuldades. E o mundo poderá ter de lidar com um Estado controlado por fanáticos religiosos, fundamentalistas radicais sionistas, acuados contra a parede e dispondo de um grande arsenal nuclear. Aí sim, tornando factível a horrenda profecia de uma batalha do juízo final naquelas paragens.


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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