Misoginia gay: quando o privilégio se disfarça de exclusão
- Ronaldo Piber

- 23 de out. de 2025
- 5 min de leitura

Por Ronaldo Piber*
Nos últimos dias, um vídeo gravado dentro do vagão feminino do Metrô Rio viralizou nas redes sociais. Dois homens gays discutiam e xingavam mulheres que pediam que eles saíssem daquele espaço — criado justamente para que mulheres possam se deslocar com segurança, livres de assédio e importunações. A confusão terminou com a expulsão dos dois, mas o debate que veio depois foi muito mais importante do que a cena em si.
O criador de conteúdo Márcio Rolim (@marciorolimoficial) transformou o episódio em uma das análises mais lúcidas e necessárias dos últimos tempos sobre a misoginia entre homens gays. Em um vídeo denso, didático e corajoso, Rolim convida a audiência a refletir sobre o quanto o machismo e a misoginia atravessam também os corpos e as mentes de homens gays — inclusive daqueles que se veem como “fora” do sistema patriarcal.
A partir de sua fala, e também das reflexões da influenciadora Hana Khalil (@khalilhana), o tema ganhou contornos ainda mais profundos: homens gays continuam sendo homens — e, portanto, continuam inseridos em uma estrutura patriarcal que privilegia o masculino e oprime o feminino.
Essa constatação, embora pareça simples, provoca incômodo. Ela obriga a comunidade LGBTQIAPN+ a olhar para dentro e admitir que o preconceito não é uma via de mão única. Mesmo entre aqueles que sofrem discriminação, há quem reproduza as mesmas violências que tanto critica. E é nesse espelho desconfortável que se revela a misoginia gay, expressão que evidencia como o privilégio pode se esconder até sob o discurso da minoria.
O privilégio que sobrevive sob o arco-íris
Rolim e Khalil convergem em um ponto essencial: o fato de um homem ser gay não o livra do machismo. A orientação sexual não anula o privilégio masculino. E quando esse privilégio passa despercebido, ele se torna ainda mais perigoso — porque se disfarça de leveza, humor, ironia ou “falta de intenção”.
Hana Khalil foi cirúrgica ao dizer: “Alguns homens gays acham que, por não desejarem mulheres, estão automaticamente isentos de machismo. Mas machismo não tem a ver com desejo — tem a ver com poder, com hierarquia, com quem se sente autorizado a ocupar espaços e definir regras.”
É exatamente isso que o episódio do metrô escancarou: ao insistirem em permanecer num espaço que não lhes pertencia, os dois homens reafirmaram o poder masculino de ocupar e dominar, mesmo dentro de um ambiente criado para proteger o feminino.
O que se viu naquele vagão foi o retrato de uma sociedade onde o privilégio de gênero ainda se sobrepõe à empatia. É o reflexo de uma masculinidade que, mesmo oprimida por ser dissidente na sexualidade, continua a operar sob a mesma lógica de dominação aprendida desde cedo: a de que o homem pode estar onde quiser, falar mais alto e ditar as regras.
O machismo que também atravessa os oprimidos
Homens gays sofrem com a homofobia — e isso é indiscutível. Mas também usufruem dos privilégios de viver em um corpo masculino em uma sociedade que ainda teme, controla e violenta o feminino.
A crença de que “todo gay é aliado das mulheres” é uma ilusão confortável. Ela encobre o fato de que muitos reproduzem, sem perceber, as mesmas dinâmicas de poder e os mesmos gestos de violência simbólica: interromper falas, ridicularizar comportamentos femininos, fazer piadas sobre corpos de mulheres, e até tocar neles sem consentimento, acreditando que “por não sentirem atração” não há invasão.
Mas, como bem lembra Rolim, assédio não é sobre desejo; é sobre poder. É o ato de violar a autonomia de alguém, de reafirmar uma hierarquia. Quando um homem gay toca uma mulher sem consentimento, ele repete o mesmo gesto de dominação que o vagão feminino busca impedir.
Dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, esse mesmo padrão se repete. Há quem se refugie no estereótipo do “gay divertido e sensato” para escapar de críticas mais profundas. No entanto, rir do feminino, imitá-lo de forma caricata ou utilizá-lo apenas como adereço de performance não é o mesmo que respeitá-lo. O feminino não é acessório. É existência, é história e é luta.
Plumofobia: a vergonha do feminino
Outro ponto abordado por @marciorolimoficial e amplificado por @khalilhana é a plumofobia — o preconceito contra gays afeminados. Esse fenômeno escancara o desprezo pelo feminino, mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
Quando um homem gay diz “não gosto de afeminados”, o que ele está dizendo, na prática, é “não quero me associar ao que é lido como feminino”. Essa rejeição, que muitos chamam de “preferência”, é na verdade uma reprodução direta do machismo. É a reafirmação da velha crença de que o masculino é superior e o feminino é motivo de vergonha.
A plumofobia cria uma hierarquia dentro da própria diversidade. O gay “discreto”, “másculo” e “passável” é valorizado; o gay afeminado, “plumoso”, expressivo, é marginalizado. Essa estrutura é a prova de que o patriarcado não desaparece — ele apenas se adapta.
E é exatamente por isso que o discurso sobre igualdade precisa incluir também as violências internas da comunidade. Não basta exigir respeito do mundo externo se, dentro do próprio movimento, se reforçam as mesmas exclusões.
Transmisoginia: o limite entre o discurso e a prática
No topo dessa pirâmide de violências está a transmisoginia, o ódio e a exclusão direcionados às mulheres trans e travestis. Rolim chama essa expressão de “a forma mais brutal do machismo”, por unir misoginia e transfobia em uma só violência.
A mulher trans é punida duplamente: por desafiar o gênero imposto e por encarnar o feminino em um corpo que o patriarcado tenta negar. E, sim, há homens gays que também reproduzem esse ódio — reforçando o poder masculino dentro da própria sigla que deveria combater qualquer forma de exclusão.
A transmisoginia é o espelho mais cruel da estrutura patriarcal: uma prova de que o problema não está apenas na orientação sexual, mas na forma como o poder é exercido e naturalizado. Combater esse tipo de violência é, portanto, um dever ético de toda pessoa que se diz aliada da igualdade.
Autocrítica: o passo que ainda falta
A principal lição do vídeo de @marciorolimoficial é um convite à autocrítica. É hora de os homens gays cis reconhecerem que, embora sejam oprimidos pela homofobia, ainda fazem parte da estrutura que oprime mulheres — cis e trans.
Reconhecer o privilégio masculino não é minimizar a homofobia. É entender que múltiplas opressões podem coexistir, e que ser minoria em um eixo não nos isenta de reproduzir desigualdades em outro. É compreender que ser gay não é sinônimo de ser feminista.
O feminismo exige algo além da simpatia: exige escuta, revisão constante, e disposição para ceder espaço e protagonismo. Exige reconhecer que há momentos em que o papel do homem — inclusive o gay — é silenciar para que outras vozes possam falar.
Ouvir é revolucionário
O vídeo de @marciorolimoficial, somado à lucidez de @khalilhana, representa um dos debates mais importantes e maduros que já vimos sobre o tema. Não há vitimismo, nem moralismo. Há reflexão, responsabilidade e coragem de se olhar no espelho.
Em um tempo em que tantos falam para serem aplaudidos, há algo profundamente transformador em simplesmente ouvir.
Ouvir mulheres não é concessão, é reparação.
Ouvir travestis e mulheres trans não é militância performática, é justiça social.
Ouvir não diminui ninguém — ao contrário, amplia o humano em nós.
E talvez o primeiro passo para uma sociedade realmente igualitária seja este: quando homens — sejam eles gays, héteros, cis ou trans — aprenderem que o silêncio também pode ser um gesto político.
*Ronaldo Piber é advogado e colunista do Jornal Pimenta Rosa




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