O TRISTE FIM DO MITO VINGADOR DA DIREITA BRASILEIRA
- Eduardo Papa

- 30 de nov. de 2025
- 6 min de leitura

*Eduardo Papa
Quem poderia imaginar que o fim da carreira de Bolsonaro seria esse espetáculo melancólico e vexatório. O mínimo que seus bravos apoiadores esperavam era uma desesperada resistência de armas na mão! Na última trincheira! Nada menos que isso, era o que sugeriam as bravatas que capitão espalhou aos quatro ventos em sua carreira. Berrava, babando pelos cantos da boca, que jamais seria preso. Difundia, entre os áulicos do cercadinho, bizarras denominações para si próprio: era incomível, imbrochável e sei lá mais o quê, mas o máximo que arrumou foi virar inelegível. E no ato final de sua prisão, ao invés de uma heróica e apoteótica resistência, seus admiradores viram um homem senil, com um fio de voz, dando explicações pouco convincentes à funcionária que inspecionava a tornozeleira eletrônica, que ele acabara de tentar violar com um ferro de soldar. Para completar a vergonha, ainda inventou uma historinha ridícula de que estava ouvindo vozes e tendo alucinações.
Imagine a frustração de expectativa de pessoas como o deputado Nikolas Ferreira, que previa que a prisão de Bolsonaro iria parar o país. Gente como Malafaia que profetizava uma maré humana a tomar as ruas de nossas cidades, exigindo a libertação de seu líder. Nada aconteceu! Apenas um magote de manifestantes, daqueles com o perfil mais caricato, deu as caras na frente das atuais acomodações de seu líder máximo, que agora desfruta de uma suíte bem maneirinha na Superintendência da Polícia Federal de Brasília. Onde estão as multidões de patriotas tomando as ruas? Cadê as colunas de caminhões interditando as estradas? Onde foi parar a imensa indignação dessa gente contra o “sistema”? O gado está amuado, sofrendo em casa com a prisão de seu mito, mais ou menos como se fosse uma derrota de seu time em uma decisão de campeonato.
A família entrou em parafuso. Tido como o mais ponderado da prole, Flávio Bolsonaro começou a ter ataques de pelanca em série, vociferando como um possesso para platéias diminutas e pouco animadas. Eduardo Bolsonaro, cada vez mais com cara de chapado, endoidou de vez e resolveu esculachar Trump e Marco Rúbio. Michele, sem explicar por onde andava quando o marido foi preso, foi para o fogão preparar uma marmitinha, para o Carluxo levar na visita ao preso. Que por falar em comida, aprontou uma palhaçada para cima dos carcereiros, recusando as refeições, alegando medo de envenenamento. Os caras ficaram pistola, se bobear vão começar a cuspir no café dele.
A trapalhada assume uma dimensão internacional, quando uma jornalista americana publica uma entrevista em que Trump, outro boquirroto incorrigível, fala que conversou por telefone com Bolsonaro (no mesmo lapso de tempo em que a tornozeleira estava sendo violada) e esperava encontrá-lo em breve. Deixando aberta a hipótese de que a ideia era seguir os passos de Ramagem, bem como de que a rocambolesca trama arquitetada por Flávio Bolsonaro, com direito a vigília de patriotários no condomínio de Bolsonaro (pobres ricos vizinhos, só agora terão paz), tenha de fato o apoio do governo estadunidense. Mesmo que seja esse o caso, foi outro tiro n’água, e colecionando tolices, o mito finalmente acabou em cana.
Vinte e sete anos, ou 324 meses, ou ainda 17.145 dias, é bastante tempo para se esquecer alguém. A fila anda para todo mundo. Os políticos que surgiram na esteira do bolsonarismo já procuram um reposicionamento, a exemplo do MBL, que surgiu e ganhou musculatura surfando na onda do mito, e desembarcou da canoa cuspindo no prato que comeu. Políticos tradicionais que aderiram ao fenômeno Bolsonaro irão procurar desvencilhar-se do que vai se transformar em uma lembrança incômoda, assessores já devem estar apagando fotos que antes eram exibidas com orgulho. Claro que restará um núcleo duro, reunido em torno da família, que fará de tudo para preservar o capital político conquistado, mas não creio que vão ter sucesso. Em breve, a ligação com o mito no passado deixará de ser credencial, passando a representar um estigma. A proposta de anistia não me parece que vá prosperar, e a disputa pelo espólio político do mito na direita já começou.
O problema é que líderes fascistas são peças de difícil reposição. A relação simbiótica de seguidores fanatizados com seus objetos de adoração é muito profunda, e produz um afeto que não pode ser transferido facilmente. A prisão de Bolsonaro vai criar um grave problema para a direita brasileira, pois o mito não morreu de fato, como Hitler ou Mussolini, está vivo e amargando o que, para seus seguidores, é uma tremenda injustiça. Qualquer candidato a ocupar seu lugar, que não lhe preste a vassalagem adequada, pode ser considerado um usurpador.
Como o capitalismo brasileiro é dominado por um neoliberalismo predador, não há espaço para uma direita civilizada, com uma perspectiva de inclusão social e justiça econômica, se esse segmento existisse na burguesia brasileira, estaria apoiando a política econômica do Haddad. Portanto, o campo da direita vai depender do segmento mais radicalizado, cristalizado hoje no bolsonarismo, para conquistar e manter o poder. Qualquer força que se apresente no campo da direita vai ter que mover-se nesse terreno pantanoso. Como cortejar as viúvas do mito? Uma gente recalcada e ressentida, desconfiada de tudo e de todos, com humor extremamente volátil e curtindo um período de luto por um líder vivo. O bolsonarismo, após turbinar a onda conservadora que varreu o Brasil, é hoje um estorvo, uma mala pesada para a Faria Lima carregar.
Bolsonaro é hoje um cadáver insepulto, espalhando sua pestilência por todos que se habilitam a empunhar o estandarte da extrema direita, sua prole de golpistas e alcoviteiros e sua esposinha, vão partir de cotovelos pontudos, procurando explorar ao máximo a imagem do patriarca preso. A escumalha que foi eleita na esteira do mito para as casas legislativas, vai se agarrar de unhas e dentes ao espólio eleitoral do bolsonarismo. Está difícil para a direita se reagrupar para enfrentar Lula nas eleições ano que vem, o que não quer dizer que o governo vai ter vida fácil.
Essa semana Hugo Motta deu uma amostra do que vem por aí, votou e aprovou uma benesse previdenciária que vai pesar no orçamento federal, sem contrapartidas na arrecadação. Parece que no jantar com Artur Lira e Eduardo Cunha, o Presidente da Câmara aprendeu a usar o expediente de pautar seguidamente projetos para desequilibrar as finanças da união, indicando que o governo terá sérios problemas com o legistativo. Em condições normais de temperatura e pressão, o centrão já teria fechado com Lula, receberia suas contrapartidas em cargos na máquina pública, e partiriam todos felizes para mais uma eleição vitoriosa, apoiando a reeleição do presidente. Porém, dezenas de deputados, que participaram gulosamente da farra do orçamento secreto, estão em maus lençóis, com o Ministro Flávio Dino em seus calcanhares. Ora, com a água batendo no pescoço, esses parlamentares caem no colo da extrema direita e podem ser tentados a apostar no caos.
Não podemos também nos esquecer do fator externo. Essa conversinha de química entre Trump e Lula, de que nosso presidente tem um charme irresistível é bobagem. O imperialismo americano é violento e agressivo, está acuado e perdendo espaço no mundo inteiro e não vão deixar barato aqui, no que consideram seu quintal. Estão errados também os que acreditam que o problema está na afinidade ideológica entre o trumpismo e o bolsonarismo, nada disso! Lá um grita - mata, e o outro responde – esfola. Foi Biden que articulou a queda da Dilma, sob o comando de Obama, democratas e republicanos olham para a América Latina e enxergam a mesma coisa, suas colônias.
A política é realmente algo muito interessante de se acompanhar, oferecendo reviravoltas inesperadas. A direita apostou tudo nas ruas, investiu pesado em dirigir o apoio conquistado nas redes sociais para gerar grandes movimentos populares. Perderam feio, tiveram seu momento, no nebuloso período entre a derrota na eleição e o golpe de oito de janeiro, mas felizmente fracassaram. Perderam o timing, como dizia Brizola, o cavalo passou encilhado e eles não souberam montar, agora não juntam mais que algumas dezenas de fanáticos. Por outro lado, a zona de conforto do governo acabou e a necessidade de mobilizar multidões passou para a esquerda. Vai ser uma pauta bomba atrás da outra no congresso, não vai passar nada de bom para o nosso povo que possa ser capitalizado politicamente pelo governo. Se o PT quiser continuar levando seu governo de maneira bem sucedida, vai ter que mobilizar o povo. Somente uma pressão popular avassaladora sobre os parlamentares pode garantir governabilidade no próximo ano. Será que vai conseguir? Será que vai pelo menos tentar? Veremos.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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