Quem é quem no universo do terrorismo?
- Eduardo Papa*

- 9 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
No início da Era Cristã, os imperadores romanos promoviam matanças para aumentar seu prestígio, organizadas em grandes espetáculos de sangue para entreter o populacho, e os cristãos figuravam entre os que eram sacrificados nas arenas. Nos tempos atuais, governantes continuam a matar indesejáveis para afirmar seu poder, e muitos seguidores do nazareno agora vibram exultantes na platéia, pedindo mais e mais sangue para lavar a sua vergonha.

*Eduardo Papa
Passados alguns dias, é possível analisar de maneira mais conclusiva a chacina orquestrada por Cláudio Castro no Rio de Janeiro. Para mim parece claro que a operação tinha dois objetivos, um tático de natureza militar, dentro do contexto da guerra urbana que se desenrola na cidade. Outro de estratégia política, respondendo às necessidades eleitorais da extrema direita para o pleito do ano que vem. Vamos especular sobre esses objetivos e ver até que ponto eles foram ou não alcançados.
No plano militar, dentro do quadro da guerra urbana que vivemos no Rio, o modus operandi da ação policial deixou claro que não havia nenhuma pretensão de interromper os negócios do tráfico, nem de recuperar o terreno sob o controle do crime organizado. Após o vendaval, o CV continua dominando a região, as bocas de fumo continuam funcionando normalmente e os criminosos já devem estar recrutando novos soldados para repor as baixas, bem como providenciando a recomposição de seu arsenal, tarefas em que não encontrão maiores dificuldades para executar, de vez que seu poder econômico não foi sequer arranhado.
A polícia promoveu uma espécie de “blitzkrieg” no morro, uma ação rápida de cerco, aniquilamento e evasão. Um ataque de decapitação para neutralizar lideranças e enfraquecer o exército dos criminosos. Atacaram, mataram (morreram também) e foram embora imediatamente, deixando o rescaldo da batalha para a população civil resolver, o Estado não deixou nem uns bombeiros para ajudar a recolher os mortos e feridos. Enquanto os mortos eram recolhidos por populares, sem qualquer tentativa de preservação do local do confronto para trabalho pericial (certamente que de caso pensado), os policiais voltavam para suas bases em um cortejo, que lembrava as marchas de triunfo dos antigos césares romanos, ao retornar de suas batalhas vitoriosas. Um vídeo do seu desfile, cuidadosamente produzido, com populares aplaudindo as tropas pelas ruas, circula amplamente na internet, sendo a primeira peça publicitária a explicitar dos objetivos políticos da operação, em que nossos policiais, sobre o sangue de seus próprios colegas inclusive, se prestam ao papel de garotos propaganda do fascismo.
É sobejamente conhecido que o Comando Vermelho, sob a liderança do tal de Doca, está atacando e tomando territórios das milícias em Jacarepaguá, área de forte atuação do bolsonarismo, onde Queiroz, Adriano da Nóbrega, Ronie Lessa, ex-funcionários dos gabinetes parlamentares da família Bolsonaro, comandavam os negócios. Especula-se que a motivação da operação policial seria enfraquecer o ímpeto da ofensiva do CV, desgastando suas forças e tirando de circulação seu comandante. Faz sentido, pois essa semana, poucos dias após a mega operação, uma jovem morreu com um tiro na cabeça, em uma via expressa na mesma região, em uma ação criminosa de outro comando, que costuma ser bem menos incomodado pela polícia, e o crime de grande repercussão na mídia, não provocou qualquer reação ou pronunciamento das autoridades.
No plano bélico a operação de Castro foi um rotundo fracasso: não prendeu nenhum criminoso de alto coturno, o Doca deve estar desfrutando de todo o conforto que o dinheiro pode pagar, e fazendo piadas sobre a polícia do Rio de Janeiro; as apreensões de armas e drogas foram pífias em comparação ao efetivo empregue e ao tamanho e recursos da ORCRIM na área; o dano colateral foi absurdo, com uma pilha de mortos, hospitais lotados e o caos espalhado por toda a cidade. Porém, o saldo político da operação ainda está na balança, e o jogo mal começou a ser jogado. A extrema direita se agarra no populismo penal como sua tábua de salvação, em um movimento bastante arriscado, que traz nuances até então não exploradas e perigosas, como o lançamento do conceito de narcoterrorismo para classificar as facções criminosas.
Ao que tudo indica, a pauta da segurança vai ser mesmo a única a restar para a direita em 2026: sobre a economia não vão nem falar, a simples comparação dos atuais números atuais com o desastre do governo de Bolsonaro os levaria a mudar de assunto, ao invés de ameaçar a nação com a possibilidade de o Brasil virar uma Venezuela, vão ter que explicar por que não vai virar uma Argentina; da tal de anistia ninguém fala mais, ano que vem então o assunto estará sepultado, com o mito e seus asseclas cumprindo suas longas penas; a surrada pauta da corrupção tornou-se um assunto delicado para os bolsonaristas, que talvez estejam enrolados nas apurações do orçamento secreto e outras maracutaias; aquela papagaiada de mamadeira de piroca, banheiro unissex, a tal pauta de costumes, já deu o que tinha que dar, pouca gente vai querer repetir a vergonha mais uma vez. Preparemo-nos então para a intensificação da histeria punitivista dos candidatos a justiceiro, que irão brotar nos quatro cantos do país em defesa da ordem e paz social.
Até aí faz parte do script. É provável que toda sorte de armações e operações de bandeira falsa sejam montadas pela extrema direita, para se apresentar como paladinos da luta contra o crime. Apoiados por elementos de dentro das forças policiais, pela mídia hegemônica que vai caprichar nos programas e noticiários amplificando a violência existente, e até mesmo pelas próprias facções criminosas, com as quais guardam relações escusas, que começam a ser reveladas. Nada de novo, o fascismo sempre aponta a violência como caminho para solucionar os problemas sociais e as divergências políticas, mas um componente novo e preocupante está se desenhando no cenário, a tentativa de usar a criminalidade para abrir brechas para a ação direta dos EUA na política brasileira.
A princípio, pensava que a campanha eleitoral sobre cadáveres iria seguir o roteiro conhecido, explorar o terror do povo, apresentando seus heróis justiceiros para o certame e acusando setores progressistas de apoiar criminosos, mas já na entrevista coletiva que Castro e seus esbirros na polícia concederam, ainda no curso da operação policial, um novo elemento começou a aparecer. As autoridades repetiam incessantemente a palavra narcoterroristas, ao mesmo tempo Flávio Bolsonaro afirmava que seria bom se Trump mandasse bombardear barcos na Baía de Guanabara , a exemplo do que faz hoje no Mar do Caribe. O que poderia passar despercebido como mais uma estultice da extrema direita histérica, na verdade revelava mais um ato na ópera bufa do fascismo em suas tentativas ridículas, por tão desesperadas e desastradas, de assalto ao poder.
Veio à tona o fato de que o governo do Rio envia relatórios sobre o que considera narcoterrorismo no Rio ao governo dos EUA, como se o Itamarati não existisse. A jornalista Bela Megale apurou que Castro esteve em maio desse ano nos EUA, em uma agenda que não foi divulgada para o povo do Rio, preparando o terreno para pedir “ajuda” aos EUA para combater o crime no Rio. A cena se completa com Trump elogiando a operação da polícia fluminense e se colocando ao dispor do governo do Rio, sem considerar que o Rio de Janeiro é um ente federado da República Federativa do Brasil, onde é competência exclusiva da União Federal conduzir a política externa.
A união dos governadores de extrema direita contra a PEC da segurança, e um novo ímpeto de Tarcísio de Freitas a disputar o Planalto (após praticamente jogar a toalha), completa o quadro, em que se desenha uma última e desesperada tentativa do fascismo para desestabilizar o governo. Sabemos que a diplomacia dos EUA usa e abusa da acusação de tráfico de drogas para justificar sua agressão imperial, foi assim na Guerra as Drogas de Bush, que não diminuiu o poder dos cartéis internacionais, mas difundiu a islamofobia no mundo ocidental, e repete-se hoje com as acusações de Trump contra Maduro e o Presidente da Colômbia de comandar estados narcoterroristas, para derrubar seus governos e se apossar das riquezas naturais de seus países.
Ao tirar o bonezinho do MAGA do armário, Tarcísio de Freitas prova que ele e os demais governadores do Consórcio da Paz, não passam de traidores da pátria brasileira, assim como os generais golpistas de Bolsonaro, são vinho da mesma pipa que Eduardo Bolsonaro e o neto de ditador, que trabalham contra o Brasil nos EUA. Não passarão! Temos problemas sérios sim, isso aqui não é nenhum paraíso de tranqüilidade e harmonia, mas chamar uma potência estrangeira para imiscuir-se em nossa política de segurança interna, só pode contribuir para agravar nossos problemas, incluindo a consideração de interesses que não atendem as necessidades de nosso povo, mas que beneficiam os estrangeiros.
Na minha avaliação, é mais um tiro no pé desses trapalhões, em primeiro lugar porque Trump é um fanfarrão, que na hora decisiva sempre bota o galho dentro. Não vai arrumar nada nem com a Colômbia, nem com a Venezuela, e aqui sequer vai tentar de fato qualquer tipo de pressão militar. E esses governadores se acham que vão crescer sobre o tema estão redondamente enganados, pois a CPI do Crime Organizado instalada no Senado pode trazer a luz situações bastante incômodas para eles. O bravateiro Caiado, que afirma ter acabado com o crime em Goiás, pode ser confrontado com o fato de que a cocaína comercializada pelo CV no Rio, talvez tenha sido beneficiada em seu Estado, que tem a maior quantidade de destilarias de cocaína do Brasil, segundo a PF. Tarcísio de Freitas e seu Lugar Tenente Derrite, talvez tenham expostas conexões obscuras com o PCC, em situações como o assassinato de um motoqueiro em Paraisópolis, quiçá levado a cabo para turbinar sua campanha. Cláudio Castro é caso perdido e forte candidato a figurar na galeria de governadores fluminenses que saem do palácio para o presídio. Enfim, Fabiano Contarato e Alessandro Vieira certamente vão povoar os pesadelos dessa turma nos próximos meses, e com Lewandowski no Ministério da Justiça e Alexandre de Moraes no STF vão botar sol na moleira da turma.
O que não podemos negar é que essa turma é persistente. Os manés não se convencem que perderam e toda hora, ou a cada setenta e duas horas, tem um babado novo, uma nova esperança de virar a mesa. Talvez esse mês, vendo seu mito ingressar no sistema penal, tirando aquela foto com uniforme de presidiário, a ficha caia para mais alguns, quem sabe?
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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