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Reposição da testosterona em homens: entenda os riscos do uso abusivo

  • Foto do escritor: Ronaldo Piber
    Ronaldo Piber
  • 16 de out. de 2025
  • 4 min de leitura


Ronaldo Piber*


Nos últimos anos, a busca pelo corpo perfeito se tornou quase uma religião — especialmente entre homens gays e bissexuais. Em redes sociais como Instagram e TikTok, o culto ao abdômen trincado, ao peitoral definido e à aparência “máscula” se mistura a discursos de saúde e bem-estar. Mas por trás do filtro e da selfie na academia, existe um fenômeno preocupante: o uso indiscriminado de testosterona e anabolizantes, muitas vezes sem qualquer orientação médica.


A testosterona é o principal hormônio sexual masculino, responsável pelo desenvolvimento muscular, pela libido, pela energia e até pela estabilidade emocional. A partir dos 40 anos, é natural que seus níveis hormonais comecem a cair, num processo conhecido como Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM). Estudos apontam que até um em cada cinco homens pode ter sintomas relacionados à queda desse hormônio, como cansaço, desânimo, irritabilidade, perda de massa muscular e diminuição do desejo sexual.


A medicina oferece, nesses casos, a terapia de reposição de testosterona (TRT) — um tratamento seguro e eficaz, desde que conduzido por especialistas e acompanhado por exames laboratoriais periódicos. O problema é que, fora dos consultórios, a testosterona virou sinônimo de virilidade, potência e juventude eterna. Muitos homens, movidos pelo medo de envelhecer ou pela pressão estética dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+, acabam se automedicando, comprando hormônios sem prescrição e aplicando doses perigosamente elevadas.


Essas práticas têm consequências sérias. O uso abusivo de testosterona pode causar infertilidade, atrofia dos testículos, aumento das mamas, distúrbios hepáticos, alterações de colesterol, hipertensão, arritmias, acne severa e até infartos. A longo prazo, o organismo perde a capacidade de produzir o hormônio naturalmente, o que cria dependência e exige reposição contínua. Muitos homens relatam também mudanças de humor intensas, agressividade e episódios depressivos quando suspendem o uso.


Dentro da comunidade gay, esse tema é ainda mais sensível. Existe uma pressão estética silenciosa, mas poderosa, que associa o corpo forte e viril a um ideal de masculinidade e sucesso social. É o que se vê nas festas, nos aplicativos e nas academias: quem é mais “definido” ganha mais atenção, mais curtidas, mais validação.


Essa dinâmica reforça padrões excludentes e empurra muitos homens a buscarem no corpo a aprovação que a sociedade, muitas vezes, negou em outros espaços.

O culto ao corpo, nesse contexto, não é apenas vaidade — é uma forma de afirmação e sobrevivência. Mas quando o autocuidado vira autossabotagem, é hora de repensar os limites. A testosterona, quando usada sem orientação, pode transformar o sonho do corpo ideal em um pesadelo clínico e emocional.


Outro ponto importante é o impacto psicológico desse processo. A queda da testosterona pode gerar sintomas semelhantes aos da depressão: apatia, falta de prazer, desânimo. Por outro lado, o uso excessivo pode provocar euforia, irritabilidade e crises de raiva. A confusão entre causas hormonais e emocionais leva muitos homens a buscarem soluções rápidas — quando, na verdade, o tratamento deve ser interdisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos e nutricionistas.


E os homens trans? A importância do acompanhamento seguro

Entre homens trans, a testosterona tem um papel fundamental no processo de afirmação de gênero e no bem-estar físico e emocional. A terapia hormonal afirmativa é reconhecida e recomendada por sociedades médicas e científicas, e quando supervisionada por profissionais experientes é segura e transformadora. Ela promove o desenvolvimento de características masculinas, redistribuição da gordura corporal, aumento da massa muscular e melhora expressiva da autoestima.


Mas, assim como em qualquer tratamento hormonal, o uso inadequado ou sem acompanhamento pode gerar efeitos colaterais importantes. Doses excessivas ou intervalos irregulares podem causar aumento do hematócrito (espessamento do sangue, com risco de trombose), alterações hepáticas, acne severa, queda de cabelo, mudanças bruscas de humor e, em alguns casos, supressão da fertilidade.


Muitos homens trans acabam se automedicando por falta de acesso a médicos acolhedores ou pelo medo da transfobia institucional, o que aumenta os riscos. Por isso, o acompanhamento regular com endocrinologista, clínico e equipe multiprofissional é essencial para garantir que o tratamento seja feito com segurança, respeito e dignidade.

Para homens trans, a testosterona não é apenas uma questão de estética, mas de identidade e pertencimento. E cuidar da própria saúde durante esse processo é, acima de tudo, um gesto de amor e resistência.


O autocuidado verdadeiro não se resume a músculos ou aparência. Ele começa com autoconhecimento, informação e respeito ao próprio corpo. Buscar orientação médica, realizar exames e discutir opções com profissionais qualificados é um ato de maturidade e autoconsciência. O uso consciente e orientado da testosterona pode, sim, melhorar a disposição e o bem-estar. Mas o uso indiscriminado, sem acompanhamento, é como dirigir em alta velocidade com os faróis apagados: a sensação de potência é momentânea, e o risco de colisão é alto.


Mais do que nunca, é hora de ressignificar o que é ser “forte”. A força não está apenas no bíceps ou no abdômen, mas em ter coragem de cuidar de si de forma integral — física, emocional e mentalmente. Um corpo bonito pode chamar atenção, mas um corpo saudável e uma mente em paz valem muito mais.



*Ronaldo Piber é advogado e colunista do Jornal Pimenta Rosa


 
 
 

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