RIO DE JANEIRO: DE ALDEIA GUARANI KIOWÁ A VILA POTEMKIM
- Eduardo Papa*

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Em homenagem a cidade em que nasci, vivi toda a minha vida, criei meus filhos e
construí tudo o que sou. Meu amado Rio de Janeiro, que completa 461 anos em 2026.
*Eduardo Papa

O Príncipe Grigori Potemkim, principal amante da voluptuosa imperatriz russa Catarina II, recebeu da soberana o encargo de dotar a Rússia de um porto de águas quentes, algo vital para a projeção do Império Russo. A escolha recaiu sobre Sebastopol na Criméia, que até hoje abriga a frota do Mar Negro da Federação Russa. Para viabilizar a construção e manutenção do porto, Potemkim ordenou a deportação em massa de camponeses russos, para a colonização da Criméia e do sul da Ucrânia (onde hoje a Rússia faz a guerra novamente). O sacrifício imposto ao povo gerou muita miséria, mortes e descontentamento entre as populações afetadas pelo grande projeto, o que chegou a alcançar repercussão internacional.
Preocupado com a imagem de incivilidade da Rússia na Europa, Potemkim organizou em 1787 uma viagem cerimonial da imperatriz as províncias do sul, e convidou a imprensa internacional para conferir o progresso do país e dissipar as desconfianças de que o povo era maltratado. Cuidadoso, para certificar-se de que tudo iria dar certo, o príncipe tratou de construir no caminho da comitiva verdadeiras vilas cenográficas, com camponeses gordos, animais bem tratados, belas casas asseadas, tudo de bom. O problema foi que um jornalista inglês notou que uma mesma camponesa, feliz e bem nutrida, aparecia em vários pontos do trajeto, a farsa foi desmascarada e o termo vila potemkim foi incorporado ao jargão político da época como sinônimo de farsa, de obra feita literalmente para inglês ver.
Quando chegaram os huguenotes de Villegagnon, e depois a tropa de Estácio de Sá, o que havia aqui era a Aldeia Guarani Kiowá. Um tipo de povoamento primitivo, mas que era habitada por um povo belo, sadio e equilibrado, que não sofria com enchentes e para o qual palavras como engarrafamento, estresse, mobilidade e outras mais não fariam o menor sentido. Os europeus pelejaram pela terra, e os portugueses vencedores construíram uma cidade que, assim como Sebastopol, devia sua existência ao porto. O Rio cresceu tendo como finalidade escoar o ouro saqueado das entranhas das Minas Gerais para a Europa. Abrigou o Governo Geral nos tempos coloniais, foi sede do Império Colonial Português com D. João VI, a capital do Império do Brasil, capital da República, foi o Estado da Guanabara e agora é a capital do Rio de Janeiro.
Assim como o porto de Sebastopol na Rússia, construída com o sangue, suor e lágrimas de escravos, pobres e imigrantes, essa imensa cicatriz de concreto que rasga a natureza entre o mar e a montanha, transformou-se na porta de entrada do Brasil, nossa vitrine para o mundo. Enquanto São Paulo não passava de um arraial povoado por índios subjugados pelos jesuítas, que servia de base para expedições para escravizar os gentios, o Rio de Janeiro já surgiu como uma das primeiras metrópoles globais do planeta. Porto de passagem entre as possessões orientais do Império Colonial Português e a metrópole, nas ruas do Rio encontravam-se mercadorias do mundo todo, havia gente de toda parte, da Índia, da Arábia, África, dando a cidade o caráter cosmopolita, que a caracteriza até hoje. Entretanto, olhando detidamente a sua história, ela parece ter sido preparada para ser a maior vila potemkim do planeta.
A primeira guaribada boa pela qual a cidade passou foi dada por Gomes Freire de Andrade, o Conde de Bobadela, que governou a cidade por 30 anos (1733 a 1763), que já previa que a falta de água ia atormentar por séculos os cariocas. Outra reforma importante foi quando D. João VI veio de mala e cuia para a cá, e os cariocas, felizes da vida por receber El Rey, tiveram que ceder suas casas para abrigar os reinóis, que chegavam escorraçados do velho continente. Na verdade, a monarquia não foi muito auspiciosa para o Rio de Janeiro, como atestou o naturalista Charles Darwin, que, em 1832, passou três meses hospedado em Botafogo fazendo suas pesquisas na mata atlântica, e definiu como suja, perigosa e governada por corruptos. Quando Pedro II embarcou para seu exílio na Europa, o porto do Rio era considerado insalubre, infestado de doenças tropicais, em que muitos capitães recusavam-se a atracar seus navios.
Despachado o Imperador, na República Velha, Pereira Passos e Paulo de Frontin executaram um novo remake na cidade, botaram abaixo o centro antigo, para abrir uma esplanada no Morro do Castelo, onde a cidade foi fundada. A Av. Rio Branco e a Cinelândia formaram um complexo urbanístico para deixar o Rio mais parecido com a capital francesa. Os cortiços deram lugar a modernos boulevares e o povo pobre foi expulso e obrigado a viver em barracos improvisados nos morros da cidade, como poeira varrida para baixo do tapete.
Nos “anos dourados” o Rio viveu outra reforma geral. Ganhou a beleza da arquitetura de Niemayer e Eduardo Reyd, cresceu para a área litorânea da zona sul, embalado pela bossa nova da garota de Ipanema. Carlos Lacerda construiu o magnífico Parque do Flamengo. A Av. Presidente Vargas foi concluída e túneis e viadutos foram construídos por toda a cidade,consolidando a prioridade urbanística dada ao automóvel.
A ditadura trouxe a política das remoções, com a erradicação de favelas das zonas nobres da cidade e a transferência da população para conjuntos habitacionais construídos nos subúrbios, e também grandes obras de infra-estrutura, como a ponte Rio-Niterói e a construção do metrô. Com a redemocratização, Brizola e Darcy Ribeiro trouxeram um novo elemento para a paisagem carioca, uma fábrica de escolas espalhou centenas de CIEPs pela cidade e construiu o sambódromo, que desde a inauguração tornou-se um dos símbolos da cidade.
No início do século XXI, a cidade foi escolhida para ser a vitrine do novo Brasil emergente, capaz de sediar grandes eventos internacionais, e passou por uma recauchutagem. Igualzinho lá na velha Rússia do Príncipe Potemkim, sob a batuta de César Maia e Sérgio Cabral, verbas vultosas foram gastas sem transparência, com suspeitas de corrupção, em obras de embelezamento feitas para inglês ver, enquanto o povo sofria na miséria. Gastamos milhões para construir um teleférico no Morro do Alemão, que apareceu na novela da Globo, mas pouco funcionou. Uma fortuna para construir o Estádio do Engenhão e para fazer um Maracanã novinho, que foram privatizados a troco de nada. Um rio de dinheiro na gigantesca Vila Olímpica (que virou um elefante branco) Tudo para qualificar a cidade para sediar os jogos panamericanos, olímpicos e a copa do mundo de futebol, e qual foi o “legado” disso tudo?
Nenhum! Até a política de segurança da época era cenográfica, quem lembra das UPPs e da ocupação do Alemão com tanques de guerra? A palhaçada durou pouco. Volta e meia a polícia faz uma matança na área para turbinar a popularidade do governador, como a recente chacina de Cláudio Castro, mas o crime organizado continua governando a região tranquilamente. A cidade do faz de conta tem a maior rede de escolas da América Latina, onde infelizmente não se aprende grande coisa. A maior rede de hospitais federais do país, que vista de perto parece a imagem dantesca dos portais do inferno. Os transportes são um verdadeiro martírio para os trabalhadores e fonte de lucros abusivos de concessionários. A criminalidade é altíssima e a polícia violenta e corrupta. Enfim, na cidade destinada a receber os turistas a qualidade de vida dos habitantes é cada vez mais baixa.
A população, bestializada, elege representantes que costumam sair de seus gabinetes para a cadeia. Hoje, por exemplo, a situação não tem candidato para a sucessão do governador, os dois últimos postulantes são cartas fora do baralho: Alexandre Ramagem, sentenciado e foragido da justiça; e Rodrigo Bacellar, que foi preso e afastado da Alerj. Da podridão lamacenta em que se transformou a política fluminense, emerge o Prefeito do Rio, Eduardo Paes, como candidato natural ao posto de cappo del tutti cappi desses mafiosos. O script dos últimos anos tem tudo para se repetir na Cidade Maravilhosa, povoada por figurantes miseráveis destinados a desempenhar um papel de claque nessa ópera bufa, estrelada por corruptos e demagogos.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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