Será que agora o Brasil finalmente vira uma Venezuela?
- Eduardo Papa*

- 4 de jan.
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*Eduardo Papa
Passamos anos tendo que ouvir de pessoas de pouca inteligência que o Brasil ia virar uma Venezuela. Afirmação repetida à exaustão com o intuito de aterrorizar a classe média, que se acha merecedora de benesses fiscais e econômicas que a mantenham um ou dois degraus acima dos miseráveis do país. Essa lenda urbana, cuidadosamente acalentada pelos políticos de direita, explora o pavor dos “remediados” de descer na escala social ao nível da ralé, e tem sido um importante elemento na propaganda fascista contra o progresso social e a diminuição da desigualdade.
Obviamente trata-se de uma mistificação sem qualquer fundamento, comparando sociedades diversas, com trajetórias históricas totalmente diferentes. Entretanto, a agressão dos EUA ao país vizinho descortina um cenário em que essa profecia ganha contornos verossímeis. Com o objetivo claro e manifesto de saquear as reservas de hidrocarbonetos da República Bolivariana, Trump iniciou uma escalada de violência contra o povo venezuelano, promovendo centenas de execuções extrajudiciais no Mar do Caribe, a pretexto de combater o tráfico de drogas, que culminou com o ataque ao país e o sequestro de seu presidente e da esposa. Sem nenhuma preocupação em dissimular seus objetivos, o 47º presidente dos EUA falou abertamente que se propõe a passar a administrar o país e que irá se apoderar de seus recursos naturais.
É uma observação recorrente de quem estuda a geopolítica atual, que o imperialismo americano em franca decadência, perdendo espaço nas áreas de crescimento econômico mais dinâmico, tende a se voltar para o continente americano e aumentar a exploração de sua área de influência, como forma de compensar a derrota que sofrem para a China. Desde 1823, James Monroe, o 5º presidente dos EUA, lançou uma doutrina que defendia a América para os americanos, e rebaixou a América Latina a quintal de seu país, tratando nosotros acá como lixo, e nossa terra como área a ser explorada em benefício da grandeza e enriquecimento de seu país. E assim foi, nos últimos dois séculos, a América Latina sangrou, com suas veias abertas, para construir a riqueza dos ianques. Uma série de invasões e intervenções armadas, patrocínio a ditaduras amigáveis, fomento a golpes de estado para derrubar governos nacionalistas, controle da mídia local, assassinatos de opositores e todo o tipo de métodos escusos, violentos ou não, foram empregues com sucesso para garantir nossa submissão ao poderoso “irmão do norte”.
É muito cedo ainda para entender o que vai acontecer no país caribenho, se Trump terá sucesso e vai levar de barato o petróleo venezuelano ou se os bolivarianos vão fazer jogo duro. Para nós aqui no Brasil, assim como para os colombianos, que esperamos a nossa vez, seria muito bom mais um fracasso de Trump, quem sabe não atrasa a investida sobre nossos países. Se eu fosse o Lula, estaria olhando para Maduro com o efeito “orloff” na cabeça, eu sou você amanhã. Nossa hora vai chegar! Esse negócio de química entre Lula e Trump é comédia, o fato de terem largado a mão da família bolsonaro não significa nada, apenas atesta o fracasso desse time, já tem muitos outros disputando vaga na seleção do Tio Sam. Setores políticos poderosos vão estar acuados pelas investigações sobre o orçamento secreto, abertos a embarcar em qualquer aventura que lhes salve o pescoço. Sem falar nos milicos traidores que já devem estar esfregando as mãos ansiosas por contar dólares. Se os bolivarianos, que cantavam a maior marra de nacionalistas, entregaram Maduro sem dar um tiro, imagine esses daqui.
Esse ano será decisivo em nossa história, e como em todo momento de decisão todas as cartas serão postas na mesa, de um extremo ao outro do arco político todos terão que tomar decisões cruciais. Para prosperar ou apenas sobreviver, será necessário explicitar claramente suas propostas ao povo, e fazê-lo em um momento em que o império vem com fome para engolir o que restou do Estado e da economia brasileira, Aí vamos ver quem é quem. Esses periquitos de realejo, que vivem com a bandeira verde pendurada nas costas, vão ter que revelar as cores do seu verdadeiro pavilhão. E os nacionalistas brasileiros, tanto os da esquerda, quanto os direitistas, vão ter que engolir suas diferenças e somar forças para resistir ao ataque.
E vamos ter que nos virar sozinhos, quem acalenta grande esperança em um apoio decisivo da China ou da Rússia, pode tirar o cavalinho da chuva. Qual foi a reação efetiva da China ao quadro? Montou um cerco naval a Taiwan, como quem diz: se você pegar o seu aí eu pego o meu aqui. A Rússia é a maior potência militar do mundo hoje, mas tem lá seus problemas e, apesar de ter um povo belicoso, não fazem guerra longe de suas fronteiras. Temos que vencer politicamente, nossa batalha vai ser travada nos corações e mentes dos milhões de brasileiros, cujo consenso em defesa do país é a nossa única arma.
O Brasil não é, nem nunca será uma Venezuela, com todo respeito pelos nossos irmãos venezuelanos, assim como jamais será um Paraguai ou um Equador. Nosso país é um gigante, que não pode ser conquistado por nenhum invasor sem o apoio interno, se a nação brasileira neutralizar a quinta coluna e fechar em torno da defesa da nossa soberania, os agressores não teriam a menor chance. Mas que o ataque a Caracas nos sirva de alerta, vamos observar atentamente os desdobramentos, muito embora Trump apresente Maduro preso como o troféu da vitória e dê a fatura como liquidada, vamos ver como ele pretende governar o país, segundo afirmou, os primeiros indícios não parece que lhe sejam muito auspiciosos, mas tudo ainda está muito nebuloso.
O certo é que nós temos que estar preparados para o pior, e que vamos viver tempos tempestuosos pela frente, em que conjurar a ameaça interna do fascismo será essencial para afastar a ameaça dos piratas imperialistas. Por ora todo apoio ao povo venezuelano contra a agressão militar injustificada e a tentativa de rapinagem por parte de Trump e seus asseclas. Para mim Maduro é o presidente da Venezuela e a eleição dele foi tão boa quanto a de Trump, Putin ou de qualquer outro. Afinal de contas, se mal conseguimos garantir o resultado de nossas próprias eleições, que sentido faz dar pitaco na dos outros.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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