THE DAY AFTER
- Eduardo Papa*

- 14 de set. de 2025
- 4 min de leitura

*Eduardo Papa
I - Deu no New York Times!
E no Washington Post, no Le Monde, na Al Jazzera, no Global Times, e em toda a imprensa mundial, com grande destaque. A maior parte da população do planeta hoje admira o Brasil, inclusive um grande número de estadunidenses. Mostramos ao mundo que nossa soberania não pode ser afrontada e que podemos resistir ao imperialismo, nosso país é hoje um exemplo de altivez e maturidade política para o mundo inteiro. O processo de julgamento dos golpistas, conduzido absolutamente dentro dos marcos legais, e a condenação dos mesmos a pesadas penas, provou que estamos deixando de ser uma “república de bananas” e passando o posto para o Tio Sam. Enquanto nossa suprema corte puniu os traidores que tentavam usurpar o poder, nos EUA, o fascismo prosperou com a conivência da cúpula do judiciário, e a cobertura do julgamento de Bolsonaro, dividiu espaço com um brutal assassinato político, que expôs das vísceras a imundície da política estadunidense, e a doença que ela causa em sua sociedade.
Nosso governo saiu fortalecido internacionalmente, e o conceito de nosso país atingiu outro patamar de respeitabilidade. Lula deve entrar de voadora no discurso de abertura dos trabalhos na ONU, dia 23, tendo o apoio entusiástico de gregos e troianos, para logo a seguir falar Trump, debilitado fisicamente, acuado politicamente em seu país e isolado internacionalmente, correndo o risco de sair muito mal na foto. Internamente, ao que indicam as pesquisas, Lula nada de braçada para a reeleição, e não me parece que o fascismo consiga controlar o senado (que é o seu objetivo estratégico para 2026). Não que nossa vida vá ser fácil, com o país dominado por uma burguesia financeira, que já demonstrou que não tem qualquer escrúpulo em trair o país ou aliar-se ao crime organizado, o povo brasileiro vai ter que mostrar muita sabedoria para escapar das arapucas que vai enfrentar, mas por ora o gol foi nosso, e podemos comemorar.
II - O Efeito Fux
Quem é do Rio de Janeiro conhece bem a peça, eu mesmo, em 2014, só não perdi a lotação na escola em que lecionava, graças ao apoio dos colegas que bancaram mobilizados a minha permanência, fui afastado das minhas turmas, sofri descontos pecuniários significativos e uma perseguição política cerrada do governo, graças a uma decisão de Fux. O Ministro, de maneira arbitrária e discutível, decretou a ilegalidade de uma greve nossa, impondo multa pesada ao SEPE e punição aos grevistas, muito embora estivéssemos cumprindo todos os trâmites e havia tudo para a greve ser considerada legal, com o Estado obrigado a um acordo. Como resultado o magistério fluminense começou a ser destruído, sem recomposição de perdas salariais desde então, recebe hoje o pior salário do país entre seus iguais. Por outro lado a filha do Ministro, jovem e de pouca experiência profissional, foi nomeada desembargadora, furando uma fila enorme de advogados mais preparados.
Fux é um juiz punitivista, não passa um Habeas Corpus com sua anuência, e participou da condenação de centenas de réus, com as mesmas acusações das quais resolveu absolver seus líderes. Para romper com seus pares teve que fazer um contorcionismo argumentativo notável, que impôs à corte uma exaustiva maratona de mais de 12 horas, ouvindo a sustentação do insustentável. Criou para si um clima horroroso no tribunal, o que vimos no dia seguinte, no final do julgamento foi uma amostra do que vai ser a convivência dele com os colegas. Enquanto os demais julgadores concediam apartes e discutiam em um clima amigável, embaixo de seu bem cuidado topete, o juiz da divergência não falou uma só palavra, não olhou nos olhos dos colegas e saiu visivelmente desconfortável.
No meio político aqui no Rio, especula-se que o motivo da guinada de Fux em defesa das garantias legais para Bolsonaro, não seja uma revisão dos seus conceitos jurídicos, mas sim o início de uma carreira política. Em dois anos o magistrado sai na compulsória, e talvez esteja considerando antecipar a aposentadoria para concorrer ao Palácio Guanabara, como candidato da familícia. Faz sentido, o candidato anunciado pelo milicianato (Alexandre Ramagem), vai entrar em cana. Flávio Bolsonaro parece receoso de deixar a imunidade parlamentar que tem no senado, por uma eleição incerta para a governança. Em tal cenário, Fux pode aparecer como ídolo do gado, o redentor do mito, e fazer uma frente ao favoritismo de Eduardo Paes. Quem sabe?
III - A nova estratégia do fascismo
Não há dúvida de que esse julgamento foi um divisor de águas. A extrema direita sofreu uma dura derrota, estão regurgitando e esperneando, mas o fato é que apostaram alto e perderam feio. Vão ter pouco tempo para lamber as feridas e se reagrupar, alguns ainda vão enfrentar processos judiciais e a diminuição de sua influência política é notória, mas essa gente é tenaz e não sofre com falta de recursos. O apoio das Bigtechs e do grande capital local não pode ser ignorado, sabemos que farão grandes bancadas e elegerão governadores em muitos estados. Mas para o fascismo não basta, eles tem muita pressa e apetite insaciável pelo poder, vão insistir na tentativa de golpe. Vão entrar no jogo com a mão fraca, sem seu principal líder para concorrer, aí mesmo é que a estratégia de virar a mesa se fortalece.
Penso eu, que um cenário bem plausível é que não façam composições políticas amplas, que apresentem um candidato puro sangue e radicalizado, para garantir uma bancada expressiva, mesmo sabendo que a chance de derrota é grande. Vão continuar trabalhando para descredibilizar o processo eleitoral, para tentar novamente o assalto ao poder. Tomara que eu esteja errado, que nada disso aconteça, e que caso meu vaticínio se concretize fracassem novamente. Entretanto, fazer previsões para a política brasileira não é uma tarefa simples, e todo cuidado é pouco quando se trata de lidar com golpistas, defensores de ditaduras e torturadores.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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