Tiros de Columbine fulminam Charlie Kirk
- Eduardo Papa*

- 21 de set. de 2025
- 5 min de leitura

*Eduardo Papa
Eu confesso que nunca tinha ouvido falar de Charlie Kirk, até seu assassinato. Porém, a enorme repercussão de sua morte trágica, levou-me a pesquisar o caso, para trazer aos leitores uma reflexão sobre o que está por trás de mais esse assassinato em uma instituição de ensino nos EUA.
Quem era Charlie Kirk?
Era uma grande liderança popular, segundo Bernie Sanders, um forte candidato à presidência do país. Uma liderança conservadora ligada ao Make America Great Again, e peça importantíssima na campanha eleitoral de Trump, abrindo espaço nas universidades americanas para a propaganda republicana. Sua estratégia era procurar o debate e ganhava eleitores pelo discurso. As ideias de Kirk eram extremamente reacionárias, para ele tempo bom era na época da escravidão, quando, segundo ele, os negros não cometiam tantos crimes. Entretanto, Kirk não era um hipócrita, quando lutava pela proibição do aborto, de fato o fazia acreditando lutar pela vida. Charlie começou a questionar publicamente o genocídio em Gaza, pecado capital! Ninguém relevante toma esse tipo de posição nos EUA impunemente, imagine uma liderança do campo conservador em ascensão rompendo com o sionismo, e denunciando o terrorismo de estado israelense? Impensável! Que políticos democratas, com uma tendência mais à esquerda o façam, está dentro do script. Mas esse tipo de questionamento, no seio do universo ultraconservador nos EUA, parece ser, literalmente, mortal.
Quem matou Charlie Kirk?
Logo que surgiu a notícia, uns fascistas daqui, especialistas em queimar a largada, saíram bradando que uma conspiração de comunistas com o Hammas, engendrada por Xi Jinping, ou coisa parecida, era responsável pelo crime, que a esquerda mundial estava mostrando sua verdadeira face sanguinária (imagine eu que nem sabia quem era o gajo, também fui enquadrado no perfil), etc. Mais uma “barrigada” seguida de vergonha! O acusado preso é um jovem mórmon (não há mórmons de esquerda), de uma família de republicanos, filho de um delegado (que o entregou a polícia), e que, ao que tudo indica, teria cometido o crime porque considerava que Charlie não era reacionário o bastante. Alguns analistas e observadores independentes, como Larry Johnson, levantam questionamentos quanto a aspectos técnicos das investigações policiais, e a sombra do Mossad começa a se projetar como pano de fundo do crime.
Que cultura levou ao assassinato de Kirk?
Lembro, como se fosse hoje, quando ocorreu o bárbaro atentado em Columbine nos EUA. Conversando sobre o assunto com alguns desses adoradores do Tio Sam, notei que ficaram profundamente espantados quando eu disse que não gostaria de morar nos EUA (na verdade não tenho vontade de ir lá nem como turista). Ante a surpresa e furor geral, fui forçado a explanar que jamais viveria em um lugar onde tivesse que mandar meus filhos para a escola com colete a prova de balas (na época tinha filhos em idade escolar). Nos EUA, só não tem arma quem não quer ou não tem dinheiro para comprar. O povo americano parece viver o tempo inteiro preparado para um tiroteio no saloon. Resolver desavenças a bala faz parte da cultura nacional, e, por um destino macabro, as escolas são um dos locais mais visados pelo terrorismo doméstico no país. Kirk era um defensor convicto do armamentismo e sabia disso, repetia em seus discursos, que atentados em escolas são inevitáveis, e um preço razoável a pagar pela manutenção da liberação do porte de armas.
Charlie Kirk não é o primeiro líder político a ser assassinado nos EUA. Entretanto, geralmente é mais fácil encontrar os cadáveres em outro espectro político, como Martin Luther King ou Malcom X, mas como ficou provado tem chumbo para todo lado. Nos EUA presidentes são baleados, desde Lincoln até Kennedy. Na maioria das produções de Hollywood tem tiroteio, e os heróis não costumam economizar munição. A indústria de armas é a mais lucrativa do país, e mantém um poderoso lobby no congresso, além de importantes interesses na indústria cultural e nas empresas de mídia. O que de melhor se pode esperar, é que mais esse crime bárbaro, leve a sociedade estadunidense a refletir sobre a banalização do uso de armas de fogo.
O que o Brasil tem a ver com a morte de Kirk?
O nosso Brasil nada, mas o Brazil que os fascistas querem construir aqui tem tudo. Não é apenas pelo fato de que são culturalmente colonizados, pois poderiam até importar idéias que prestassem, mas sim porque a violência em que se espelham nos EUA serve para normalizar e justificar a pistolagem que bancam por aqui. O caso do PCC com o pé na Faria Lima, surpreendeu apenas neófitos na política e pessoas ingênuas, que acreditam que atividades criminosas que movimentam somas vultosas, são operadas por marginais de chinelo e bermuda nas quebradas.
O Brasil votou em um plebiscito livre, por ampla maioria, que não queria mais armas. O Brazil da extrema direita quer empurrar de qualquer jeito a liberação das armas pela goela abaixo da nação. A argumentação de que o fazem para a defesa do cidadão é uma falácia, na verdade o fazem para oprimir a cidadania, para intimidar o trabalhador desarmado ante o miliciano armado. Armas não servem para cuidar ou proteger, armas servem para matar e ferir.
Que tipo de uso político está sendo feito com a morte de Kirk?
Muito embora tenha sido sobejamente esclarecido que o assassinato de Kirk foi fruto da cozinha do fascismo americano, e que nada tem a ver com qualquer força de esquerda. O fato de que algumas pessoas tenham comemorado o crime, serviu como uma espécie de prêmio de consolação para os nazistas tupiniquins, que, frustrados no seu imenso desejo de atribuir à esquerda o crime, passaram a promover uma campanha de cancelamento agressiva, com o intuito de criminalizar por suas convicções ideológicas cidadãos notáveis e comuns de nossa sociedade. O deputado Gayer sugeriu a autoridades dos EUA a deportação de Wagner Moura, nosso candidato a essa edição do Oscar. Nikolas Ferreira começou uma campanha de difamação e tentativa de criminalizar esquerdistas no país, estimulando empresários a efetuar demissões por motivação ideológica.
Para essa gente medíocre e sem valor, vou dar um exemplo do que são os comunistas brasileiros. Cândido Portinari pintou o magnífico painel que ornamenta a entrada da sede da ONU em Nova Iorque. A obra monumental foi feita em partes no Brasil e montada no local de exposição, e Portinari nunca pôde ver sua obra montada, porque o grande artista era da direção do PCdoB. e não teve o visto para entrar nos EUA do macartismo. Portinari, Oscar Niemayer, Jorge Amado, Antônio Callado, Érico Veríssimo, Celso Furtado, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Chico Buarque e quase todo mundo digno de nota nas artes, na ciência e na cultura brasileira estão à esquerda no espectro político. E essa gente trevosa e mal educada, o que traz para apresentar, Olavo de Carvalho como filósofo e Bolsonaro como estadista? A máxima de Rosa Luxemburgo, de aplicação universal, é particularmente evidente em nosso país: é socialismo ou a barbárie, não há meio termo!
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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