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Zumbi dos Palmares: o herói ultrajado

  • Foto do escritor: Eduardo Papa
    Eduardo Papa
  • 16 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura
A estátua de Zumbi, na Praça Onze (RJ), já foi alvo de diversos ataques de vândalos por motivações racistas
A estátua de Zumbi, na Praça Onze (RJ), já foi alvo de diversos ataques de vândalos por motivações racistas


*Eduardo Papa

 

A inscrição do nome de Zumbi no Panteão da Pátria em Brasília como herói nacional, ao lado do Duque de Caxias e do Almirante Tamandaré, sintetiza de certa forma o que Zumbi representa para o inconsciente coletivo de nossa nação. O líder negro parece figurar como um estranho no ninho entre latifundiários escravocratas e imperialistas, uma convivência que parece ser possível apenas no frio mármore do monumento da capital federal. Porém, no meu entender, a maior diferença entre eles não está na cor da pele, na condição social ou mesmo nas causas pelas quais lutavam, mas no desfecho de suas histórias.


Caxias na fundação do exército brasileiro e Tamandaré comandando nossa gloriosa, e então poderosa, marinha de guerra, foram líderes militares vitoriosos, que voltaram à pátria cobertos de glória, festejados pela imprensa, saudados pelo povo e pelo poder, objetos de todo tipo de homenagens, com suas figuras imortalizadas e até hoje estampadas nos livros de história. Zumbi ao contrário perdeu sua guerra, seu exército foi dizimado e seu povo escravizado, é um herói sem rosto, cuja morte não bastou aos inimigos, que com a mutilação de seu corpo pareciam querer apagar a sua existência de nossa história.


Caso o Império Brasileiro não tivesse vencido a guerra contra Solano Lopez o que seria da memória de nossos líderes militares? Provavelmente uma pálida lembrança de comandantes derrotados, cuja expressão não resistiria ao tempo. Zumbi ao contrário, derrotado e trucidado, amaldiçoado pela Igreja e proscrito pelo poder colonial, vê sua memória ressurgir flamejante das cinzas como a fênix.


Líder guerreiro de uma federação de aldeias com vários milhares de almas, tendo que lidar com o Império Português e nações indígenas em suas fronteiras, Zumbi certamente jamais sonhou que poderia um dia vir a existir uma sociedade brasileira, independente, multirracial e democrática e, muito menos, que para ela viesse a se transformar em um ícone. Talvez Zumbi nem mesmo prezasse tanto assim valores que hoje associamos a sua figura, como a luta pela liberdade e contra a discriminação racial, certamente a luta pela preservação e prosperidade do quilombo, ou até mesmo pelo poder dentro de sua estrutura, eram algo bem mais presente em suas preocupações.


Pouco importa, pois não foi propriamente sua vida e obra, bem pouco documentadas, que serviram para gravar sua imagem em nossa memória, mas sim sua morte heroica, defendendo até o fim o último bastião de seu povo, contra forças muito superiores da bandeira de Domingos Jorge Velho. Zumbi não é um herói com feitos militares ou administrativos a serem exaltados. Zumbi é um herói que não tem descendentes conhecidos, mas simboliza a ancestralidade de milhões dentre nós. Zumbi é um herói sem sobrenome e sem rosto, mas que deixou uma marca indelével na alma de nosso povo, pois foi o herói que morreu combatendo a opressão.


Diferente de Tiradentes executado cruelmente pelo Estado, após a infame traição que abortou a Conjuração Mineira, Zumbi morreu de armas na mão, liderando um exército de homens que lutavam pela liberdade de viver da terra com suas famílias, contra um inimigo terrível que prometia a tortura e a escravidão. Com a morte de Zumbi, a Serra da Barriga nas Alagoas testemunhou o surgimento de um mito. Que figura mitológica pode ser mais importante para a sociedade brasileira atual que a de um líder negro, defendendo até a morte suas comunidades, santuários de liberdade e tolerância em um mundo brutal, nas fronteiras do escravismo e da antropofagia?


Nenhum outro personagem de nossa história é capaz de trazer um simbolismo tão forte quanto Zumbi dos Palmares, provocando amor e ódio, incendiando paixões presentes na alma brasileira desde os primórdios de nossa história. Quando Brizola e Darcy Ribeiro cravaram na principal via do centro do Rio de Janeiro um monumento a Zumbi, ficou clara a diferença entre o líder quilombola e os demais heróis da pátria brasileira.


Enquanto Caxias em sua imponente estátua equestre, na mesma avenida, Tamandaré de seu alto pedestal divisando a Baía da Guanabara, ou mesmo Tiradentes anualmente lavado pelo corpo de bombeiros fluminense, ornamentam há décadas a paisagem carioca sem causar qualquer reação, incomodados apenas pelos pombos. A estátua de Zumbi em seus poucos anos de existência já foi alvo de diversos ataques de vândalos com motivações racistas, demonstrando o poder formidável que tem a imagem do líder de um povo, cuja memória é capaz de incomodar seus inimigos séculos após sua morte.


Zumbi não é um herói do passado cuja memória repouse em museus, para ser contemplada pelos homens do presente como parte de um passado resolvido e acabado. Zumbi é um herói da atualidade e vai continuar a lutar, não mais em seu arraial nas Alagoas, mas dentro da consciência de cada um dos brasileiros até que seu bom combate seja vitorioso, e que a liberdade e igualdade cheguem para todos nós cidadãos, herdeiros dos sonhos e da grandeza de Zumbi dos Palmares.


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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